domingo, 8 de julho de 2012

Palavras - Por Alexandre O'Neill e Eugénio de Andrade

Palavras, Palavras que Ferem, Violência, Violência Verbal

Há palavras que nos beijam...

Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.

Poema de Alexandre O'Neill


As palavras

São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

Poema de Eugénio de Andrade

3 comentários :

  1. Belo contraponto. A mim, que tanto gosto de palavras e que tanto gosto destes dois poetas e destes dois poemas, nunca me tinha ocorrido colocá-los ao espelho. É uma opção inteligente do ponto de vista racional e uma opção arguta, digamos assim, do ponto de vista estético. Parabéns. Gostei muito.

    ResponderEliminar
  2. Tão diferentes - os poetas, e tão iguais - os poemas.

    ResponderEliminar

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...