segunda-feira, 25 de junho de 2012

Se eu fosse milionário...

Farmhouse Among Trees de Vicent Van Gogh, Quinta, Quinta Isolada
Farmhouse Among Trees, de Vicent Van Gogh
 
Há quase vinte anos, procurava ansiosamente um novo impulso para o meu livro; aquele que sonhara que seria a obra de arte da minha vida. Era jovem e ambicioso, mas estúpido. Estúpido por acreditar que já tivera sucesso, de forma a poder coroá-lo com o livro da minha vida, o ponto mais alto de uma grande carreira. Mas não passava de uma criança com alguns trocos nos bolsos, pensando que podia realizar todos os meus caprichos. Enganei-me! Mas ainda bem que assim foi; pelo menos, por uma vez na vida, aprendi uma grande lição...

Escrevera três volumes de poesia erótica, de uma só enfiada. Pornográfica em muitas das suas estrofes, embora na maioria dos versos apenas sublimasse o sexo. Juntara ao prazer a total desinibição, violara todas as fronteiras,  rompera com todos os limites - ou assim pensava. Masturbação e orgias deliciaram as mentes mais envergonhadas. Um pouco de sado-masoquismo libertara os tímidos. Sexo aqui e acolá, sexo ali e além, sexo em todo o lado; sensualidade e perversão.

A arte da voluptuosidade, ou a voluptuosidade da arte; a voluptuosidade-arte como Mário de Sá-Carneiro confessara na sua Confissão de Lúcio.



Sexo por cima e por baixo, sexo pela esquerda e pela direita; sexo pela frente e por trás... e o deleite do meu editor rico e tarado, que mais que ninguém apoiara a minha vertiginosa subida para a fama, sob o disfarce de um pseudónimo, junto daqueles que na obscuridade fantasiam as mais mirabolantes posições, desconhecidas do kama-sutra, e que no dia-a-dia se escondem na falsidade do puritanismo mais que vitoriano.

Foi assim que, jovem e incauto, me vi de repente passeando de mão dada com os anjos sobre as nuvens dos meus sonhos. Podia finalmente, como sempre almejara, deitar para trás toda a minha vida, e recomeçar tudo de novo.

Ah!... Sexo nas entrelinhas!...

As loiras que se roçam freneticamente nos lençóis da minha paixão. O Amor a troco de alguns cifrões. O prazer a escassos centímetros do desejo. Os meus caprichos volvidos realidade. Enfim, de mão dada com os meus devaneios!

Abandonei o curso de Direito na Faculdade que, de qualquer forma, jamais terminaria; pensei em despedir-me, mas parti sem me despedir dos meus amigos e familiares. Acabei a relação que tinha com uma namorada. Arrumei toda a minha vida em alguns sacos, malas, e uma pequena arca, onde depositei carinhosamente as memórias mais queridas, cartas de namoradas,  a foto onde abraçava terna e timidamente, nos longínquos tempos de infância, uma rapariguinha trigueira. Guardei também nesse cantinho uma foto dos meus pais, e a foto onde segurava um rapaz que fora o meu melhor amigo como um irmão muito querido. E com os olhos suavemente humedecidos fechei-a para sempre.

Arrumei toda a minha antiga vida nessa bagagem, e arrumei a bagagem no sótão da casa dos meus velhos pais, o sótão da casa dos meus tempos mais felizes, o sótão da minha infância. Parti... Partiria sem bagagem, rumo a uma nova vida, uma segunda hipótese para ser feliz.

Já foi há vinte anos... E o meu livro continua por escrever...

Precipitadamente decidira comprar uma pequena propriedade orlada por altos freixos; no centro desta, uma minúscula casa de quatro divisões, duas das quais se fundiam numa só. Ainda hoje habito essa - esta - mesma casa.

Depois de se atravessar a ponte de madeira, que une as margens de um pequeno riacho, uma ponte com pouco mais de quatro metros de comprimento, continua-se por um caminho poeirento uns cinquenta metros mais, até se chegar à entrada da minha casa. As paredes de granito dão-lhe a forma de um cubo; um cubo de arestas subditamente prostradas sobre o manto verde que escorrega das montanhas que se erguem no seu horizonte, soberanamente.

Ao fundo, para lá do meu pequeno quintal, começa uma floresta, que se perde no horizonte, de solitários ciprestes. Atrás dela ergue-se a vigorosa montanha, coberta de neve nos picos mais altos. Foi para aí que me dirigi no segundo dia da minha nova vida.

Na memória bailava-me ainda a imagem da minha última namorada...  que não conseguira convencer a começar uma nova vida a meu lado. Fervia de mágoa e saudade... Mas fora melhor assim, cogitava, assim deixara toda a minha antiga vida para trás.

Nos ouvidos rugia-me também a voz do meu melhor amigo, que tudo tentara para me demover da minha partida. Mas não havia nada a fazer, nada me podia fazer voltar atrás. A decisão fora tomada há muito tempo, depois de muito tempo a tomar forma no meu subconsciente... Tinha simplesmente que esquecer tudo. Nascer de novo. Renascer das cinzas daquilo para que deixara a minha vida arrastar-se!... Matara a minha antiga vida... Ela jazia e apodrecia tão longe, num lugar que a memória ia deixando rapidamente de alcançar.

Passeava lentamente por entre os ciprestes, mergulhado nos meus nostálgicos pensamentos, esperando uma súbita e impetuosa inspiração para o romance da minha vida... Mas o tempo ia passando, o sol estava já em trajecto descendente,  e a frustração e revolta fluíam dentro de mim, deixando-me nauseabundo. Foi quando, ao longe, comecei a perscrutar um velho vulto, a silhueta de um homem que se dobrava sobre si mesmo, como se lhe fossem acabar as forças.

A figura magra e curvada aproximou-se lentamente. À medida que se aproximava, os traços difusos do seu rosto iam-se definindo: nas rugas sulcadas pelo tempo bailavam sardas há muito ali semeadas. Em duas grandes concavidades, estavam semi escondidos os olhos que mais tarde pude constatar que eram de um tom castanho esverdeado. A cabeça estava apresentava-se quase despida, restando-lhe apenas alguns cabelos, sem dúvida ruivos no passado, que lhe cobriam a nuca.

Texto de um de muitos rascunhos dispersos por imensos cadernos que guardo nas gavetas de um armário. Tem por cima o título «Memórias de uma Revolução por Acontecer».

Também eu fantasio ser milionário, sempre fantasiei, quem não fantasia? Era isto que eu faria. Estou cada vez mais farto desta sociedade que já não é para as pessoas - não sei se alguma vez o foi. Farto da vidinha e das suas hipocrisias, mesquinhezes, anseios e temores. Enfim, farto de pessoas, farto de mim mesmo. Sei que são remotas as hipóteses, mas vou jogando no Euromilhões, desde sempre uma mesma chave, e outras que entretanto acrescentei. É a minha melhor hipótese - talvez a única. Ou isso ou encontrar algum multimilionário extravagante que queira ser meu mecenas - mas, como se sabe, os multimilionários extravagantes só são mecenas de assassínos e outros semelhantes; para que saibam, mato sempre alguém nos rabiscos mentais de enredos para romances que nunca chegarei a escrever. Ou... Bom, jamais casaria sem ser por amor. E depois, de que me serviria, se um dos pontos é não dividir a minha solidão com ninguém? Só queria uma propriedade isolada, uma biblioteca com todos os livros que tenho listados, e uma máquina de escrever. Não queria ter acesso à internet, nem sequer um computador, que isto só distrai. Porque me lembrei de falar nisto hoje? É a vidinha... Detesto a vidinha! 

5 comentários :

  1. Respostas
    1. Não tenho condições psicológicas para tal (too sad, but true)...

      [Tenho tantos começados - aí até às 40/50 páginas - e se contasse com aqueles que destrui por completo... Falta-me uma coisa essencial, sem a qual não consigo escrever: serenidade; na vida e na alma, por assim dizer]

      Obrigado pelos teus comentários, amigo. Forte Abraço.

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  2. Serenidade é fácil de encontrar, quando nos esquecemos do mundo ao redor.
    Boa sorte!

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