quinta-feira, 7 de junho de 2012

Fernando Pessoa era gay?

Fernando Pessoa em flagrante delitro
Fernando Pessoa em flagrante delitro

Ainda não li a biografia que tanta discussão tem causado, Fernando Pessoa: uma quase-autobiografia; e se a vou ler, assim o espero, também não será por causa da polémica. No entanto, não quero deixar passar esta polémica sem deitar um pouco mais de lenha para a fogueira, nem que seja apenas um cavaco. 

Teresa Rita Lopes faz-se passar por Álvaro de Campos. É engraçado, pronto, mas é um exagero. Tantos anos a estudar a Pessoa e a Obra que lhe deu para isto. José Paulo Cavalcanti Filho, responde não respondendo. Afinal, há ou não há erros de palmatória na biografia? Não me interessa saber quantos prémios recebeu a obra, nem quantos exemplares foram vendidos. Ou há erros, ou não há. Teresa Rita Lopes volta a atacar, depois de uma defesa que não foi defesa nenhuma, no jornal Público.

Teresa Rita Lopes, dizer que nunca ninguém viu Fernando Pessoa bêbado é o mesmo que dizer que o viam frequentemente depois de ter bebido demais. Todos nós sabemos que foi isso que lhe destruiu o fígado. Teresa Rita Lopes insurge-se quando na dita biografia são usados versos da Tabacaria para reconstruir a vida do biografado. Para logo a seguir afirmar, pois o dizia Álvaro de Campos num poema, que a mãe do poeta era religiosa, pois fala Campos da infância em que rezava.


Teresa Rita Lopes pertence a um grupo de Pessoanos - cujo trabalho muito admiro - que passaram as últimas décadas a limpar a imagem de Fernando Pessoa. Deve ser por isso que se insurge agora contra o brasileiro que veio sujá-la. José Paulo Cavalcanti Filho, servindo-se do poema Tabacaria terá escrito que Fernando Pessoa terá pensado em casar-se com a filha da lavadeira. Diz (diz Teresa Rita Lopes que é Álvaro de Campos que diz, pela sua mão): «Um pouco mais de coerência, senhor ex-ministro! Então o Fernando era homossexual e sentia-se assim “atraído” do pé prá mão, não só pela filha da lavadeira como pela Ofélia, a quem o Senhor seguidamente responsabiliza pela mudança da minha orientação sexual.» Não sei se isto ainda é do domínio dos fanáticos, se é já do domínio dos loucos. Teresa Rita Lopes pertencerá ao grupo das pessoas para quem ou se é homossexual ou se é heterossexual. Entre uma coisa e a outra, apenas o vazio. Alfred Kinsey teve tanto trabalho para nada!

(Abro parêntises para dizer uma coisa de que agora me lembrei. Numa aula de Português insinuou a minha professora que o Fernando Pessoa e o Almada Negreiros, coiso. E foi logo um murmurinho pela sala. Embora se coiso, pessoalmente penso que seria mais engraçado com o Mário de Sá-Carneiro. Ah, mas para esse houve aquela prostituta, e tinha havido o Tomás Cabreira Júnior, aquele que também se suicidou, anos antes do nosso Mário.)

Mas, Fernando Pessoa era gay? Hoje em dia é impossível responder a esta pergunta, provando a resposta. [Ou será que um dia vai finalmente surgir aquele documento da arca sem fundo do poeta?] Qualquer resposta, afirmativa ou negativa, será sempre uma questão de intuição, para não dizer fé, nem fanatismo. Para se tentar perceber, mais que vasculhar a vida e a obra de Fernando Pessoa, há que tentar estudar as mesmas à luz do conceito de egodistonia. Não sei se Teresa Rita Lopes ou José Paulo Cavalcanti Filho saberão o que é isso? Também não importa. Quanto a mim, a resposta a esta pergunta, tendo que dar uma resposta, é:

- Sim, Fernando Pessoa era gay, e gostava de William Shakespeare.

9 comentários :

  1. Respostas
    1. Na realidade importa, sim. É por isso que se fazem biografias, para contar sobre a vida dos biografados, em todos os aspectos da sua vida, nos quais se incluiu a sexualidade... Esta pode ter bastantes erros - não sei, logo que possa vou ler - mas pelo menos parece uma biografia (ainda que inventada): é que sobre Fernando Pessoa já estou farto de ler hagiografias...

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  2. Excelente artigo, André. Merecia estar num dos nossos jornais. Muitos parabéns!

    Não entendo qual é o problema acerca da relação de Pessoa com a bebida. Desde que não tenha feito mal aos pares, animais racionais ou não. O importante é a obra que nos deixou.

    Tabacaria expressa, para mim, todo um estado depressivo com o qual tantas vezes me identifico.
    Quanto a homossexualidade, seguindo a perspetiva de Didier Dumas, a sua paixão por Shakespeare tradu-lo. Afinal, quase todos os homens gostam de outros pois, caso contrário, como seria possível viver em harmonia?
    À semelhança do João questiono qual a importância da orientação sexual do poeta. a sensibilidade parece traduzi-lo mas não é condição essencial.
    Curiosa a não convergência das diferentes biografias. Mas vejamos o aspeto positivo: Pessoa mantém-se vivo, na atualidade não apenas pela sua obra.
    Abraço.

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    1. Paulo, quanto à qualidade da obra, a orientação sexual do poeta não tem importância nenhuma, como não tem importância se bebia muito, pouco, ou razoavelmente... Porém, não é obra que se discute, é a biografia. E se se escreve uma biografia, é claro que a sexualidade (orientação incluida), conta!

      Quanto a a Teresa Rita Lopes dizer que nunca ninguém viu o poeta bêbado, é rísivel, para não dizer outras coisas...

      Obrigado pelo comentário. Abraço.

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  3. Quando eu me referia ao "não importa" era no sentido da vida dele, e não na referência à biografia.

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    1. João, o que eu penso é que é uma hipocrisia a desesperada tentativa de mostrar que Fernando Pessoa era heterosexual, porque escreveu umas cartas bonitinhas (e rídiculas) a Ofélia Queiroz... A hipótese «homosexual» é tão válida como a hipótese «heterosexual»... E sim, penso que esta questão terá importado muito na vida do Fernando Pessoa... isto é, a questão sexual... lembro-me sempre deste poema:

      Dá a surpresa de ser.
      É alta, de um louro escuro.
      Faz bem só pensar em ver
      seu corpo meio maduro.

      Seus seios altos parecem
      (se ela estivesse deitada)
      dois montinhos que amanhecem
      sem ter que haver madrugada.

      e a mão do seu braço branco
      assenta em palmo espalhado
      sobre a saliência do flanco
      do seu relevo tapado.

      Apetece como um barco.
      Tem qualquer coisa de gomo.
      Meu Deus, quando é que eu embarco?
      Ó fome, quando é que eu como?


      «Quando é que eu como?»

      Tudo o resto é polémica - e eu gosto de polémicas... :P Abraço

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  4. Uma coisa é certa... (e peço desculpa por ser negro o que irei dizer) mas quando acabarmos todos por ir ter com ele, logo lhe perguntaremos. Isso ou então contratar algum médium que nos permita ter contacto com ele, porque de resto, são apenas hipóteses sem quaisquer facto a comprovar.
    E vá... ele até deve ter ido prá cama com a Ofélia (chamem-lhe gay, parvo é que não).

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    1. Blackye, Não sei se era ou não. Já tenho a biografia em questão para ler. Mas, seja ou não, não acredito que tenha ido para a cama com a Ofélia. Enfim, tufo isto é irrelevante.

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    2. De facto, bastante irrelevante...o que importa é a sua obra (se bem que para compreender uma, temos que conhecer a outra) mas no que respeita a isso não vale mesmo a pena tentar adivinhar ou não, são pormenores insignificantes da vida dele.

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