terça-feira, 26 de junho de 2012

Da infância perdida à vida reencontrada (de um Homem a enlouquecer)*

Psycho, Alfred Hitchcock, Psicose, Loucura, Madness, Going Crazy
Fotograma do filme Psycho, de Alfred Hitchcock


Todos os seres, meus semelhantes, pelos quais torci algum dia algum esboço de paixão, ou que estiveram presos a mim pelos sagrados laços do Amor, ou morreram ou partiram... O Santuário do Amor foi profanado; no seu altar os deuses do Ódio e da Inveja receberam o sangue da virginda-de de tenras crianças, cujos sorrisos foram penetrados pela luxúria de perversos pederastas... Sodomizada a infância da minha memória, violada, assassinada assim tão cruelmente, perpassada pelo olhar frio, penetrante, incisivo da pedófila religiosidade das aparências, deixada a minha vida sem escolha com um destino apenas, que sorrindo lhe ofereceram; tinha que o aceitar estoicamente, já sem sentir nem vontade de sentir, já vazio o meu corpo e a minha alma da dourada Sensibilidade... Arrefeci, como arrefece qualquer Homem só. Arrefeci, como arrefece qualquer Homem a quem se oferece como único caminho, o da sinuosa Solidão.
Não sei exactamente quando deixei de me apaixonar; a minha vida tornara-se diletantista havia muito, até que por fim, mesmo nas esferas do hipotético, se deixaram de fabricar as paixões; deixei assim de me apaixonar e de me querer apaixonar.
Iniciei então a mais longa fase da minha vida, na qual o único relacionamento – que fugia assustado da minha misantropia – que mantive foi comigo mesmo... Masturbado o olhar cândido da minha casta infância nada mais havia a fazer; entrei na mais desregrada das vidas; sem leis, regras, valores ou princípios. A única ética desses tempos consistia em odiar.


Todos os seres, meus semelhantes e não só, retorcem-se no meu olhar, implorando miseri-córdia; mas o meu olhar é hoje o de um Homem ferido, doente, prestes a realizar a Missão última para que se converteu, e pela qual sobreviveu todos estes anos que passaram na mais asceta das solidões; meditei na minha religiosidade e ela ordenou-me seu executor. No sacro altar do Amor correrá o sangue viscoso dos genitais esmagados em louvor dos deuses dessa hipocrisia que a mim me condenou; e a nobre infância das crianças será chorada nas lágrimas que escoam do céu encarnado do pôr do sol do fim do mundo... A vingança que brilha nos meus olhos iluminará a noite daqueles que dormem tranquilos.
Não sei exactamente quando é que esta paixão brotou em mim; a minha vida tornou-se função dela. Em meu redor atingi com ódio tudo que, mesmo que hipoteticamente, se ousou aproximar; deixei assim de me querer salvar.
Iniciei então a fase decadente da minha vida, em que mutilei o que de mim restava, para deixar de existir, para que deixando de existir, deixasse de sofrer a morte da minha infância. Do onanismo da minha vida sobrou a impotência para amar.

Nenhum ser, meu semelhante, desperta em mim sentimento algum, nem de ódio nem de amor, nem de indiferença sequer. No mundo é como se todos tivessem morrido ou partido; em volta de mim não há nada, nem sequer vestígios de ter havido. E é por isso que eu estou só, só como nunca ninguém esteve antes de mim, muito lentamente arrefecendo.
Não sei exactamente quando é que este sentimento que vou revelar se encetou em mim; hoje vivo na esperança de que ele se realize, de que se realize esta ternura que embala o meu ser, que novamente adormece como uma criança imaculada; deixei assim de odiar e de querer odiar.
Iniciei então a fase mais feliz da minha vida, em que parti em busca do meu amor, para que encontrando-o, eu possa desabrochar a minha infância enterrada. Do que resta da minha vida, é tudo para te conquistar.

*De um rascunho muito antigo.

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