sábado, 16 de junho de 2012

Anotação número 92

Scattered Photos, Fotos Espalhadas, Recordações


92.

Sobre a minha secretária espalham-se fotografias. Pedaços momentâneos de vida. Amigos. Ela. Sonhos. A minha amada. Fantasias. A minha amante. Projectos. Futuro. O destino. Acreditava que o controlava. E o Sébastian. Mas destinei-me a servi-lo. Matei-me ao matá-lo. Eu e o meu destino. O mesmo. Enganei-me quando decidi ser um viajante sem bagagem; quando me convenci de que o melhor era entregar-me ao caminho. Ignorei que o caminho era eu que o fazia. Que nada nem ninguém, nem destino nem deus algum, o fariam. Quando dei conta de mim, apercebi-me que viajara por caminhos de outros, guiado pelas contingências do momento, pelas idiossincrasias do tempo, pelas convenções do lugar. Pego nas fotografias. Uma a uma. Vivo outra vida em cada instante ali cravado. O Sébastian abrindo um sorriso largo. Eu de um lado, o Fábio do outro olhando para ele com o seu sorriso vibrante. Ela beijando-me com ternura. No jardim. No parque. No dia do casamento. Os meus pais no dia em que se casaram. O meu filho gatinhando para a vida. O meu filho que nunca voltei a ver. Os meus pais que morreram. O Sébastian que se quis ir embora. O Fábio que se evaporou como um ser etéreo.
Não estou conformado; resignado apenas. Perdi tudo.
Que vida. Tão farta e tão vazia.
Noutro álbum um instante suspenso no momento em que foi meu amigo um amigo que nunca o foi. Percebi-o tarde demais, quando já me invadira a alma. Atrás de si deixou apenas destroços. E fugiu. As palavras de aviso do meu pai ecoam no meu cérebro «enquanto tiveres utilidade». Um dia não precisou mais de mim. Pisgou-se antes que mefistófeles piscasse meio olho. Fixo a fotografia. Envoltos pela vegetação que já não é nada. Barrocos e construções terminadas. Ali estamos. Sem, contudo, significarmos alguma coisa um para o outro. Ali estamos, como irmãos, mas nem nos conhecemos. Ali estamos, como amigos, mas no fundo há desprezo. E o desprezo é a forma mais cruel de odiar alguém. Estamos ali por engano, lado a lado, abraçados. Estamos ali – o que parece é passado, o que é ninguém o sabe...

Anotação número 92 de 99, de um livro feito romance a partir de fragmentos e anotações, e que são 5 histórias que se cruzam, mas que podiam ser apenas 1. O título original era «Morte na Madrugada», com o subtítulo «ou o eterno amanhecer», porque sempre gostei de subtítulos. Que dissessem o mesmo, o contrário, ou outra coisa qualquer.


O Romance «Os Cadernos Secretos de Sébastian» encontra-se à venda, em livro, na Amazon e na CreateSpace. Em formato e-book podem encontrá-lo na SmashWords, no iTunes, na Amazon, e noutras lojas online.

4 comentários :

  1. Sinto-te!
    Que bem que escreves, André. Escreve uma novela!

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  2. Respostas
    1. LOLOLOL. Paulo, este texto faz parte de um livro: http://www.wook.pt/ficha/os-cadernos-secretos-de-sebastian/a/id/1421861?a_aid=4ead77e04db82

      Abraço.

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