quinta-feira, 14 de junho de 2012

Anotação número 18

Abandono, Rejeição, Solidão, Tristeza, Depressão


18.

Dos últimos tempos que passei no colégio recordo sobretudo a solidão interior que se agudizara e a ilusão que criei à volta de um amigo que pensei que tinha mas que nunca o foi.
Naqueles dias em que eu me encontrava mais distante dos outros e o sentimento de solidão grassava dentro de mim, ele apareceu vindo do nada, como um anjo, e como um anjo desapareceu. E mais uma vez pensei na miragem do outro lado da cerca:
«Ainda bem que decidiste vir ter comigo, estava aqui tão só.»
Foi o amigo por quem teria dado a vida [Porque é que ainda lhe chamo amigo?]. Nunca o consegui esquecer, nem nos quartos do amor que ela me estendeu, nem nos corredores da amizade que com o Sébastian percorri. Que teve ele de especial?
A família é a casa onde nascemos, e de onde necessitamos de sair, para que o cordão umbilical se corte e possamos nascer. A amizade é a casa onde encontramos abrigo, onde podemos regressar sempre que queremos. O amor é a casa que por fim decidimos habi-tar. Em que casa o coloquei a ele?
Não sei, julgo que construí outra casa, diferente de todas estas, mas igual e elas todas. Ele necessitava de alguém. Tinha sido arremessado para o colégio pelos pais, por não ser desejado nas suas vidas. Sentia-se abandonado. Sofria. Amava-os. Sentia-se rejeitado por aqueles que mais amava. Eu ali estava. Foi no meu ombro que ele veio chorar os seus infortúnios, dizendo-me o quanto amava a família, primeiro, e o quanto queria que eu fosse da sua família, depois. Mas tudo isto porque estava só, abandonado e rejeitado. Eu construí uma casa para ele. A casa ficou vazia para sempre.
Quando a família lhe deu a atenção que qualquer filho merece, eu deixei de existir para ele. Como são diferentes as pessoas quando precisam de nós. De um dia para o outro. Corte radical. Para sempre. Foi difícil. Nunca mais o vi, nunca mais me disse uma palavra, nunca mais me procurou. Nunca mais se importou comigo, o amigo que me disse que seria para sempre meu amigo. Como é fácil dizer palavras sedutoras...


Anotação número 18 de 99, de um livro feito romance a partir de fragmentos e anotações, e que são 5 histórias que se cruzam, mas que podiam ser apenas 1. O título original era «Morte na Madrugada», com o subtítulo «ou o eterno amanhecer», porque sempre gostei de subtítulos. Que dissessem o mesmo, o contrário, ou outra coisa qualquer.  


O Romance «Os Cadernos Secretos de Sébastian» encontra-se à venda, em livro, na Amazon e na CreateSpace. Em formato e-book podem encontrá-lo na SmashWords, no iTunes, na Amazon, e noutras lojas online.

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