segunda-feira, 9 de abril de 2012

não somos de uma terra enquanto não tivermos lá ninguém enterrado...

Neuchâtel


Neuchâtel - em memória do João.

Cheguei a Neuchâtel com muitos anos de atraso, eu sei. Acredito que se não tivesses morrido, teria chegado antes. E acredito que se estivesses vivo me perdoarias. Quase nunca falo de ti a ninguém*, embora andes tanta vez no meu pensamento - e tantas vezes, nas horas do mais profundo e absurdo abismo da alma, tu sejas a força que me salva - quase nunca digo o teu nome, quase nunca digo o verdadeiro porquê da minha paixão por esta cidade. A minha paixão por esta cidade és tu - ou a tua memória. Passei por Neuchâtel no dia 11 de Março passado, estive em Neuchâtel, mas apenas no La Maladière, no dia 14 de Março, e cheguei verdadeiramente a Neuchâtel no dia 7 de Abril de 2012. Não sei se algum dia chegarei definitivamente, para ficar. Em breve terão passado 13 anos sobre a data prometida.

Neuchâtel era o Xamax, a tua equipa, a equipa que um russo qualquer levou à ruína, Neuchâtel era o Suchard Express, fabricado em Neuchâtel pela Chocolat Suchard - olha, só agora reparei que o ano em que a fábrica foi fechada em Neuchâtel, foi o ano em que tu morreste... em Neuchâtel. Neuchâtel era a tua camisola de futebol e o teu boné, Neuchâtel eram os postais com o Castelo... Neuchâtel era - sim, o resto fica apenas para nós. 

Éramos apenas crianças, eu sei, mas nunca mais houve ninguém na vida a quem quisesse tanto, a quem confiasse tanto, a quem prometesse tanto. E o plano, o plano definitivo, o nosso único plano, o nosso único objectivo era este: Neuchâtel. (Nunca ninguém nos entendeu, nem aos nossos devaneios, porque nós falávamos outra língua, uma língua só nossa.) Não viveste para saber da ironia, a grande ironia da vida, a ironia que sempre chega e nos trespassa o peito: a única pessoa que esteve perto de ser para mim aquilo que tu eras, meu irmão - não de sangue, mas de alma -, perdi-a quando foi viver para Neuchâtel.

Neuchâtel é afinal a cidade que eu devia odiar por me ter tirado tantas pessoas que me foram tão importantes. Mas não consigo não gostar de Neuchâtel, porque Neuchâtel não é apenas uma cidade - se calhar uma cidade como tantas outras no mundo - Neuchâtel és tu! E um dia terei que ir ao teu encontro. E terei que espalhar um punhado de areia sobre a tua campa... Tu sabes... Tínhamos estas superstições em que não acreditávamos...


*Até hoje tu sabes? só tinha falado de ti uma vez, a uma pessoa... Sim, e tinha dito o teu nome aqui.

3 comentários :

  1. Mas que linda homenagem.
    O João decerto, onde quer que esteja, estará orgulhoso de ter tido um amigo assim...

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  2. Lindo... as memórias deixam-nos para sempre nos espaços que habitamos...

    Fátima Campos

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  3. Um abraço, grande e solidário! Apenas um abraço, afinal...

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