segunda-feira, 23 de abril de 2012

Dia Mundial do Livro

Diário do Farol, João Ubaldo Ribeiro


Toquei pela primeira vez em livros num dia em que me esgueirei para um velho cubículo da casa dos meus avós maternos que servia de despensa, casa das batatas, adega, e o que fosse preciso. Devia ter uns cinco anos, ou talvez já tivesse feito seis, sei que ainda não andava na escola. Nascido numa aldeia perdida no interior de Portugal, até à entrada para a escola nenhum contacto havia com essa outra realidade que em breve me iriam impôr. Talvez minta, que um dia a minha mãe havia-me comprado um caderno, um lápis, e uma caneta, na pequena mercearia local. Nessa altura ainda utilizava a mão esquerda para pegar nos lápis e nas canetas. Serviram para eu fazer desenhos daquilo que eu chamava plantas de casas. Modéstia à parte, foram os melhores desenhos que fiz em toda a minha vida. Porque, embora seja ambidestro, a minha tendência para usar a mão esquerda foi logo contrariada no primeiro dia de aulas. Mentira: também o era antes; em casa da minha avó tinha que comer a sopa com a direita, que comer com a esquerda era coisa do Demo. 

Mas os livros de que falava? Eram os livros da quarta classe que haviam sido utilizados pela minha mãe e pela minha tia. Com muita pena minha, perdi-lhes o rasto tempo depois, sendo provável que tenham sido deitados para o lixo. 

Só voltei a tocar em livros quando entrei para a escola; em casa não havia um único livro e eu, sinceramente, nunca gostei dos livros da escola. Mas havia outros livros, eu pressentia-o. E queria tê-los, folheá-los, lê-los, descobrir-lhes os mistérios. Um dia numa papelaria fiz birra, queria um livro. Não me importava qual, um qualquer. Então o dono da papelaria sugeriu à minha mãe Roubaram o Toy aos Sete. Foi assim que calhou em sorte a este livro de Enid Blyton ser o meu primeiro livro. Depois seguiram-se outros. A minha madrinha comprou-me quatro de uma vez. Mas passaram muitos anos até voltar a ter livros meus. A maioria dos que lia eram emprestados ou de bibliotecas, e foi há tanto tempo que às vezes me surpreendo a ler livros que afinal já tinha lido. E deste modo há muitos exemplares nas minhas estantes a que só li as primeiras páginas por descobrir depois de os comprar que já os tinha lido.

Agora, na Suiça, o que mais me custa é não ter uma livraria onde possa entrar, folhear, comprar. Já comprei alguns em Francês, mas o que eu gosto é de ler em Português. Desde que me deixem o Benfica e o Português, pela minha parte dou de boa vontade esse território chamado Portugal a quem fizer a oferta mais baixa. Mas ler e escrever são actividades que só me dão prazer em Português. Calhou, neste dia Mundial do Livro, estar a ler Diário do Farol, de João Ubaldo Ribeiro, livro que um generoso amigo me ofereceu, enviado do Brasil mesmo - Obrigado! Comecei a ler ontem à noite - e logo me pareceu, à medida que lia, que era eu que dizia aquilo que estava escrito... Até à página 30. Agora vou continuar a leitura. Deixo-vos uma fotografia de duas páginas (cliquem na imagem para ampliar):

Diário do Farol, João Ubaldo Ribeiro

5 comentários :

  1. O Benfica e o Português, de acordo. Mas então tantos portugueses fantásticos que andam por aqui, apesar de todos juntos fazermos um país de m****.
    Podem os livros ser a paixão duma vida? Diga lá, André.

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    1. O que desejo a todos os Portugueses fantásticos é que se livrem desse malfadado pedaço de terra...

      Os livros são a minha mais antiga e consistente paixão - diz-se que depois de dois anos, se a paixão continua, é mesmo amor.

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    2. O pedaço de terra não é bom, não, mas os que puderem, devem ficar para o melhorar. É o que eu acho, e amanhã é, de novo, 25 de Abril.
      Abraço longínquo.

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  2. Pode não ser a minha maior paixão, mas ler é algo de muito importante para mim.
    Já te disse no Google+ o livro que estou a ler actualmente, e o meu último post (muito denso e longo) é baseado no último livro que li...

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    1. Vou ler agora o teu último post, antes de me deitar, que só já tenho 5 horas para dormir... Abraço.

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