domingo, 5 de fevereiro de 2012

As perguntas que não vêm no jornal Sol - II


- Pedro como é que os portugueses podem poupar se cada vez têm menos dinheiro disponível?
- O estado chamou a si essa responsabilidade. Ao aumentar os impostos e diminuir os salários, por um lado o governo deixa menos dinheiro a esses estróinas para gastar, o que diminiu o consumo, e por outro lado...
- Mas...
- ...Não me interrompa! E por outro lado, o estado chamou também a si a função de poupar. O estado poupa por esses mandriões... poupa com as despesas de saúde, poupa com as despesas da segurança social, poupa com as escolas... Posso dizer-lhe que o estado farta de se poupar! Com este ritmo de poupança, Portugal chegará a 2013 com condições para desapertar o cinto! Digo-lhe mais: Portugal terá que desapertar o cinto, pois tanta poupança fará com que o estado seja, em 2013, um estado farto!
- Quer dizer que estamos a engordar o porco para o matar?...
- A quem der mais! Árabes ou Chineses...



- A diminuição das importações e o aumentos das exportações pode considerar-se um sucesso?
- Um enorme sucesso!! Deixámos de importar ucranianos e brasileiros, e estamos a exportar portugueses! Conseguimos colocar este produto em quase todos os cantos do mundo! A política económica do governo está a ser um termendo sucesso! Veja que, como disse um eminente economista angolano, Manuel Alves da Rocha, até o desemprego já conseguimos exportar para Angola! Quem é que se lembraria de exportar desemprego? Uma ideia genial!
- A que é que atribui a diminuição das importações? Estamos a conseguir produzir internamente o suficiente para as nossas necessidades?
- Aqui entre nós, com isto da exportação de portugueses...

- Refere tantas vezes que Portugal não vai precisar de nova ajudar externa, nem de mais dinheiro, nem de mais tempo... Em que se baseia para estar tão convencido disto?
- A manterem-se a este ritmo as exportações e importações de que ainda agora falámos, quando chegarmos a 2013 o governo terá apenas que apagar as luzes do aeroporto, fechar as portas, e entregar as chaves à troika. Termos conseguido o maior desígnio deste povo, como dizia o grande poeta Jorge de Sena, termos salvo os portugueses de Portugal. Claro que alguns estão renitentes, não querem abandonar o navio. Mas nós tudo faremos para os tirar daqui. Não baixaremos os braços como Schettino...

- Pedro, também lê os nossos poetas!? Agora confesso que me surpreendeu!
- Não, não, não exagere! O que eu leio são os blogs dos assessores que o governo tem contratado...

- Pedro, e aquela ideia da meia-hora a mais, admite que foi um pouco infeliz?
- Nada disso, bem pelo contrário! Nunca nos passou tal ideia pela cabeça. Tínhamos era que arranjar uma estratégia para enganar esses tonsos dos sindicatos. Primeiro ameaçamos que vamos dar cem chibatadas, depois chegamos a um acordo para darmos só cinquenta, e os parvos dos trabalhadores ficam todos contentes por levarem menos porrada...

- Pedro, porque é que a ideia de que há oposição entre austeridade e crescimento é ociosa?!
- Ai! Você faz-me estar sempre a repetir-me! Quanto maior a austeridade para os trabalhadores, maior o crescimento das receitas para o estado... Não vejo onde é que há oposição! Pelo contrário...
- ...Isso no imediato até pode ser verdade, mas não é contra-producente a médio e longo prazo?
- Oh meu caro, a médio prazo estamos todos falidos, e a longo prazo estamos todos mortos... Carpe diem, carpe diem!...

- Que o Pedro fala duma maneira que ninguém o entende, já todos tínhamos percebido. Até pensávamos que fosse chinês... Mas parece-me que é latim... Também sabe latim?
- Não, não, li esta expressão no blog de um assesssor e gostei...

(parte I)

6 comentários :

  1. O Estado estará farto e nós fartos dele.

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    1. Isto se conseguirmos suportar estes tipos por muito mais tempo...

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  2. Excelente, André!
    Esse pedaço da entrevista foi censurado pelo relvas, de certeza.
    bjo

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    1. Ando a juntar trocos para um corta-relvas...

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  3. Pena não ler o meu blog...
    Ficava a saber usar uns certos vocábulos da nossa língua a propósito da sua pesoa.

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    1. Quem sabe, quem sabe... se calhar até lê - ou algum dos seus assessores...

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