quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Portugal, a Flor e a Foice

Portugal a Foice e a Flor, José Rentes de Carvalho

A prova? Na maioria, na grande maioria dos romances portugueses, os personagens populares são postos a falar com empolamento académico, ou então com a ênfase pesada dos maus dramas de teatro. Mais: aquela linguagem não é a sua, autêntica e rude. Nada disso: é uma linguagem que o escritor inventa, pedantesca, a mentir na sintaxe e nos sentimentos. A ponto que com os romances portugueses sucede o seguinte: não parecem ter sido escritos para serem lidos, ou com a intenção profunda de, ao agitar um problema da sociedade, causarem uma mudança ou corrigirem uma injustiça, mas simplesmente para que o autor possa dar entrada naquele grupo de eleitos que se julgam diferentes, e daí melhores.
Mas o povo, mesmo inculto, quase analfabeto, não se deixa iludir nem impressionar, e os escritores portugueses bem poderiam atentar no facto bizarro de que há mais de cem anos "as massas"- como agora lhes chamam - apenas conhecem e compram dois livros: Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco (1825-1890), um grande escritor do Romantismo com raízes populares que não mentem; e Rosa do Adro, de Manuel Maria Rodrigues (1847-1899), do qual um dicionário de literatura diz com superioridade: "Romance popular de grande voga, exemplo típico da falsa literatura regional, obra sub-literária até na linguagem".
Caso para dizer: olha quem fala. E será assim, visto pelos olhos académicos, não vamos discutir aqui critérios de classificação literária. É sintomático, porém, que o povo se identifique com obras de sub-literatura, datando de há mais de um século, e ignore tudo de um Neo-Realismo que, supostamente, espelha as suas alegrias e dores.
Não se vá, porém, deduzir do que atrás fica que, durante este meio século de miséria, a literatura portuguesa tenha tido excessos de atenção para com o povo.. Se por vezes o utilizou como tema foi, sobretudo, para melhor falar de si própria, mostrar como, enfatuada e parva, é capaz de cabriolas.
Num artigo sobre a Censura em Portugal José Cardoso Pires relata que o neo-realista Alves Redol escrevia em 1970 no hospital: "Sou um desses escritores que morrem completamente isolados do seu país... Nunca me deixaram escrever o que queria".
Estranha confissão. Quem poderá jamais impedir um escritor de escrever o que quer? Não o fizeram outros, ao longo de ditaduras mais ferozes, correndo, não o risco da censura, mas o da prisão, da tortura, da humilhação, da morte? Não o fizeram os alemães sob Hitler , os russo sob Estaline e depois? Não o fizeram os italianos e os gregos? Não o fazem tantos espanhóis e sul-americanos?
Monstruoso concubinato o de certos escritores portugueses com a Censura,, escrevendo com o propósito de serem censurados e assim alcançarem o nadinha de notoriedade que, doutra forma, os seus escritos nunca lhes dariam. A mostrarem depois cicatrizes da alma como quem pendura medalhas num uniforme – para que se veja. E queixando-se da falta de liberdade, esquecidos de que a liberdade não é coisa que se receba doutrem, mas direito que se tem.
Se não fosse a Censura, diziam, escreveriam coisas grandiosas e quando chegasse a liberdade eles iriam tirar das gavetas os manuscritos lá escondidos, as obras primas, os soluços abafados pelo fascismo.
A liberdade chegou com o 25 de Abril , mas as gavetas nada continham. A Censura e o fascismo tinham sido a desculpa fácil, o pretexto visível a cobrir um mal mais profundo que a falta de talento: a demissão perante a realidade política e social do país, o alheamento voluntário em malabarismos de uma intelectualidade duvidosa.
O escritor brasileiro Graciliano Ramos (1892-1953), um dos intelectuais comunistas que sofreram a repressão sob a ditadura de Getúlio Vargas, escreve em Memórias do Cárcere: "Certos escritores se desculpam de não haverem forjado coisas excelentes por falta de liberdade - talvez ingénuo recurso de justificar inépcia ou preguiça. Liberdade completa ninguém a desfruta: começamos oprimidos pela sintaxe e acabamos às voltas com a delegacia de ordem pública e social, mas nos estreitos limites a que nos coagem a gramática e a lei, ainda nos podemos mexer".
Os escritores portugueses, regra geral, preferiram não se mexer."


J. Rentes de Carvalho, em Portugal, a Flor e a Foice. Dizer que esta obra não está publicada em Português diz mais sobre Portugal do que se estivesse. Podem ler 3 excertos no blog do autor, aqui, aqui, e aqui.

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