sábado, 5 de novembro de 2011

Quando Hitler me Roubou o Coelho Cor-de-Rosa*

Quando Hitler me Roubou o Coelho Cor-de-Rosa, Judith Kerr
Comecei a escrever a série de posts livros que nunca devia ter lido num dia em que pensava neste livro de Judith Kerr. Embora no meu pensamento o título fosse outro: O Dia em que Hitler me Roubou o Coelho Cor-de-Rosa, e já não soubesse quem era a autora. Tinha a ideia que era uma autora, porque me recordava que o livro narrava acontecimentos auto-biográficos, e a personagem principal era uma menina: Anna, vim a descobrir depois. Porque é que na minha memória alterei o título ao livro?, não sei. E da história em si tenho umas vagas, muito vagas, recordações. É um livro que li há muitos anos, talvez em 1995 ou 1996 [a primeira edição é de 1992]. O que recordo lucidamente são as vicissitudes e contingências, que é o mesmo que dizer os acasos e eventos, que me possibilitaram e condicionaram a leitura do livro.

Era interno num colégio católico [como toda a gente sabe - ora aqui está uma fórmula para dizer nada, parecendo que se diz alguma coisa - os católicos, nomeadamente os colégios de tal estirpe, são tudo menos católicos - e ainda menos cristãos: não se ofendam, eu sei como é duro atirarem-nos com a verdade à cara; e, de qualquer modo este não é o assunto deste post; todavia, falando ou escrevendo sobre as circunstâncias que rodearam a minha leitura deste livro, não podia deixar de referir onde é que tal acção ocorreu], e um dia foi decidido criar uma biblioteca de turma: para tal cada um de nós contribuiria com um ou dois exemplares de livros que tivéssemos a mais, e daria uma quantia simbólica pelo aluguer dos livros.

Era obrigatório ler pelo menos um livro por ano, e fazer a respectiva ficha-de-leitura, que contribuiria para a nota no final do ano. Eu já tinha feito a minha ficha-de-leitura, e acreditem que detestava fazer fichas-de-leitura, detestava tanto fazer fichas-de-leitura quanto a maioria dos rapazes detesta ler livros. [Não referi ali atrás que no colégio católico para onde o destino, ou a falta de sorte, me arremessou, só era frequentado por rapazes. Pasmem: agora já admitem raparigas, embora só em regime de externato. O que a falta de dinheiro faz...] Tinha feito uma ficha-de-leitura sobre Os Possessos, de Fiódor Dostoiévski. Não queiram saber o que penei! Jurei que nunca mais avaliaria um livro pelo título: agora imaginem o que é ler Os Possessos numa edição envelhecida, em 3 volumes, com uma letra miserável, quase microscópia, da colecção dos Livros de Bolso da Europa-América [um dia destes mando as facturas das consultas ao oftalmologista, ao optometrista, e dos respectivos pares de óculos a que já me sujeitei, para a Europa-América.] E um destes dias tenho que voltar a ler Os Possessos, agora a sério, que aquilo que eu fiz não foi uma leitura, foi uma auto-flagelação...

Nunca mais voltei a fazer uma ficha-de-leitura, e por mais livros que quisesse ler da biblioteca, não podia correr o risco de ter que fazer uma ficha-de-leitura. Ainda hoje não percebi: não era suposto a biblioteca servir como incentivo à leitura? Então só me restava uma hipótese: roubar os livros temporariamente, lê-los o mais brevemente possível, às escondidas para que ninguém soubesse que os tinha tirado, e rezar para que ninguém desse pela sua falta antes de os devolver. Foi o que aconteceu com muitos dos poucos livros que li [os livros nunca foram, nem nunca serão, muitos, para mim] daquela biblioteca. Porém, quando faltavam apenas algumas páginas para acabar a leitura, deram pela falta do livro. Era uma peripécia de coração-nas-mãos tirá-los, e desta vez nem a entrega aconteceu sem alguma aflição. Que diabo, mais a culpa que nos inculcam nos colégios católicos! E eu que nem acreditava, nunca acreditei, em Deus...

E Quando Hitler me Roubou o Coelho Cor-de-Rosa, de que é que fala? Há títulos que, de tão compridos, resumem toda a história. Porém todas as histórias são feitas de outras pequenas histórias; e são essas outras histórias que dão sentido - orientação e sabor - à história. Se bem me recordo, o Coelho Cor-de-Rosa nem sequer foi roubado, perdeu-se algures na viagem. Mas não se guiem por mim, que a memória engana-nos a todos.


*Post Extra da série livros que nunca devia ter lido. Era para ter sido o primeiro, mas como não tenho o livro, nem me recordo da história a não ser em linhas muito gerais, acabei por excluí-lo.

5 comentários :

  1. Adorei este post.
    Para já, gostei imenso do título do livro, de que nunca ouvi falar, e que tu acabas por não explicar do que se trata; mas isso até é só o pretexto para falares de livros, da tua paixão por eles e de como tudo começou tão cedo e num local que explica muita coisa...

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  2. Também eu gostei muito da tua publicação, Miguel.
    Fazes afirmações tão pertinentes!!!

    Grande abraço.

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  3. Paulo, onde é que foste buscar o meu segundo nome civil?!

    Obrigado pelo comentário.

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  4. Pinguim,

    Visto que já nem eu me lembro por aí além do que é que conta o livro, a não ser em traços gerais, e uma vez que está esgotado e na net há pouca ou nenhuma, ou duvidosa, informação, tinha que falar de outra coisa qualquer...

    Abraço.

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