domingo, 20 de novembro de 2011

O Chão que Ela Pisa, de Salman Rushdie - livros que nunca devia ter lido, 11

O Chão que Ela Pisa, Salman Rushdie
(11) Enquanto olho para o meu exemplar de O Chão que Ela Pisa, de Salman Rushdie, tento lembrar-me da história de Vina Apsara e Ormus Cama, narrada pelo fotógrafo Rai. Mas já não me recordo. Claro que se começasse a (re)ler, depressa se acenderia na minha memória, como num enorme salão em que as luzes se vão ligando aos poucos, até se encontrar totalmente iluminado. Foi um livro que li demoradamente. Uma ou duas semanas, porque há momentos da nossa vida enquanto leitores, em que nos bastam algumas páginas por noite, antes de adormecer, para dormirmos satisfeitos.

Comprei o Chão que Ela Pisa numa tarde em que andava pelas livrarias à procura de Os Versículos Satânicos. Não os tendo encontrado, decidi que ao menos teria que comprar um livro do mesmo autor. Ainda foi num tempo em que as editoras não tinham sites na internet, e a própria internet era um bem escasso, muitas vezes pago a peso de ouro, em meias-horas num qualquer cyber-sítio. O Chão que Ela Pisa podia muito bem ser uma história de um amor impossível - não recordo a história, nem quero lembrar-me dela agora, talvez até seja a história de um amor impossível. Certo é que foi por esse motivo que me decidi por este título. Podia ser a história de um Cavaleiro Andante que segue as pisadas da sua Amada sem que alguma vez a consiga alcançar. 

Sempre gostei de histórias de amores impossíveis. O pior que um autor me pode fazer é atirar-me com um «e viveram felizes para sempre» à cara. Levo-lhe a mal, e recuso-me a ler-lhe mais uma página que seja. Não gosto que me mintam, e gosto ainda menos que me digam a verdade, que eu não gosto de ser evangelizado. Quero lá saber se casaram, se tiveram filhos, se se amaram mesmo ou se apenas perseguiram uma miragem... O que importa são os caminhos percorridos, aquilo que investiram e aquilo de que abdicaram, aquilo que mudaram em si, aquilo que temeram, o que sofreram, as emoções que sentiram, o que choraram: sim, os heróis também choram, só as pessoas normais não choram. E pessoas normais só existem nos manuais de estatística.

Também tenho para ali, de Salman Rushdie, Os Filhos da Meia-Noite, mas já ganhou tantos prémios que me tirou toda a vontade que tinha de o ler. É que com tantos prémios a expectativa inflaciona tanto a qualidade do livro, que dificilmente a realidade chegará a metade. E além de mais, assim posso continuar a querer lê-lo, o que é sempre uma grande vantagem. 

No dia de S. Valentim de 1989, último dia da sua vida, a lendária cantora pop Vina Apsara acordou a soluçar de um sonho sobre um sacrifício humano em que ela era a vítima.

Excerto de O Chão que Ela Pisa, de Salman Rushdie. Eu sei que é um excerto muito pequeno. É a primeira frase do livro. Não quis estragar-lhe o efeito com o que vem a seguir. Imagino que depois de uma frase destas seja doloroso ter que continuar a escrever.

2 comentários :

  1. Não sei porquê, é um autor que nunca me entusiasmou a ponto de me interessar um livro dele.
    Também não se pode ler tudo...

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  2. Infelizmente, infelizmente... hehehehe

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