terça-feira, 8 de novembro de 2011

As perturbações do pupilo Törless - livros que nunca devia ter lido, 9

As perturbações do pupilo Törless, Robert Musil
Quando li As perturbações do pupilo Törless, de Robert Musil, ainda o título era O Jovem Törless. Também a tradução era outra, de 1987, da Editora Livros do Brasil, feita por João Filipe Ferreira. Depois publicaram-se as obras completas de Robert Musil, nas Publicações Dom Quixote, com traduções da responsabilidade de João Barrento. O título As perturbações do pupilo Törless é mais fiel ao título original e ao conteúdo da obra; contudo prefiro o título O Jovem Törless. Preferiria até que o título fosse somente Törless. Penso que estaria mais de acordo com o livro que eu li. Houve alguém que disse - eu ouvi-o, ou li-o, já não sei, ao José Saramago - que ler era reescrever. É por isso que digo que o título devia ser simplesmente Törless. Um título só e desamparado. Porque foi assim que eu li, ou melhor, foi assim que na minha leitura reescrevi Törless.

Törless é um daqueles livros que li tarde demais. Há livros que lemos antes do tempo (li muitos livros antes do tempo, Os Possessos de Fiódor Dostoiévski, que referi neste post, foi um deles), outros que lemos na altura certa, outros que devíamos ter lido muito antes. Quando abrimos o livro, e depois de passarmos a epígrafe de Maeterkinck, que soa como um último aviso, chegamos a «uma pequena estação de caminho-de-ferro». Törless despede-se da mãe, ou a mãe de Törless despede-se dele, ou um despede-se do outro, nunca saberemos bem. E no momento seguinte já Törless está no internato fundado por uma ordem religiosa.


O pequeno Törless, faminto por leituras, devorava tudo isso, e o conteúdo romântico de uma ou outra daquelas novelas de vez em quando permanecia algum tempo na sua mente; mas nada exerceu verdadeira influência na sua personalidade.
Nessa época parecia que ele não tinha personalidade.
Por exemplo, influenciado por essas leituras, escreveu contos ou começou uma epopeia romântica. Excitado com os sofrimentos amorosos dos seus heróis, o seu rosto ficava vermelho, o seu pulso acelerava-se, os olhos brilhavam.
Mal, porém, largava a caneta, tudo acabava; era como se o seu espírito só vivesse durante a emoção. Era capaz de rabiscar um poema ou conto sempre que lhe pedissem. Excitava-se, mas nunca levava isso muito a sério, e essa actividade não lhe parecia importante. Não mudava em nada a sua pessoa, era como se o que escrevia nem brotasse dele. Apenas, sob alguma pressão externa, tinha emoções que se erguiam acima da indiferença habitual, como um actor necessita do estímulo de determinado papel para representar bem.

Excerto de O Jovem Törless, de Robert Musil, na tradução de João Filipe Ferreira para a Editora Livros do Brasil, que é a que possuo. Também tenho o monumental O Homem sem Qualidades, na tradução de João Barrento, para a Publicações Dom Quixote. Duas obras imprescindíveis!

1 comentário :

  1. Eu também o li como "O Jovem Torless", e ao contrário de ti, acho que o li cedo demais, eu era muito, mesmo muito jovem; e não é nada que não se possa remediar...

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