sábado, 1 de outubro de 2011

no tempo da poesia

Desenho de Corpo Feminino Nu
Marie-Jo dans une pose de dix minutes.

I

a noite desce
pelo horizonte
pela janela
pelos teus ombros
e caminha
esguia
para o novo dia

tu queres ir embora
mas
espera um pouco
ainda está escuro
e frio
o teu corpo
junto ao meu



II

nas tardes quentes de verão
o teu rosto alabastrino
tornava-se num doce rubi
despias a roupa suada
e eu pedia-te para vires
deitar-te a meu lado

tu dizias que era errado
e eu calava-me até pedires
com indiferença fingida
para te entregar os lábios
para te depositar na testa
um beijo de reconciliação


III

chovia
e mesmo assim
nua
a tua pele
junto à minha
procurava
freneticamente procurava
não abrigo
ou consolo
agasalho
ou carinho
nem um fim
nem um caminho
procurava
procurava-me simplesmente
a mim


IV

quando as nossas mãos
se apertaram
apartaram medos
dissémos
sem o dizermos
o quanto nos amávamos

quando as nossas mãos
se apertaram
já não era segredo
para ninguém
o quanto nos amávamos
sem o dizermos


V - no tempo da poesia

corríamos para o regato
e líamos Eugénio
à sombra dos salgueiros
trocávamos beijos apaixonados
juntávamos sonhos e desejos
e dividíamos os receios

fugíamos para as cearas
e líamos Sophia
quando ouvíamos o riso
dos rapazes que se aproximavam
com a ponta dos dedos percorria
o teu rosto e beijava-te
enquanto eles nadavam
e riam às gargalhadas

e nem as trovoadas repentinas
das tardes quentes
nos separavam


Poemas de André Benjamim.
Desenho daqui.

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