sábado, 24 de setembro de 2011

MONEY



Sem dinheiro, um tipo tem um dia de idade e um centímetro de altura. E também está nu.
(...)
Se todos nós largássemos as ferramentas e durante dez minutos nos déssemos as mãos e parássemos de acreditar no dinheiro, então o dinheiro deixaria de existir. Nunca faremos isso, evidentemente. Talvez o dinheiro seja a grande conspiração, a grande ficção. A grande viciação, também: estamos todos viciados e não somos capazes de nos desabituar.
(...)
Seria natural achar o dinheiro do subsídio de desemprego ainda mais precioso do que o outro, não seria? Seria normal senti-lo como se fosse o último dinheiro do mundo. Mas não. A sensação que causa é de lixo, uma coisa para deitar fora. Nada.
Dinheiro, o dinheiro cheira mal. Palavra, cheira mesmo. Oh, fede! Peguem num maço de notas muito usadas e abram-nas à frente da cara. Peguem. Abram. Abanem-se com elas. Peúgas de miúdos e cheiro penetrante de uma ressaca porno, fermento azedo, toalhas húmidas, o sebo das costuras de carteiras, o suor das palmas das mãos e a porcaria das unhas das pessoas que manuseiam todo o dia esta merda, com tanta necessidade. Ah, que fedor!
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Onde se meteu a rapariga? Às vezes fazem Georgina trabalhar até mais tarde, sem horas extraordinárias. Um escândalo, concordo - mas a verdade é que anda toda a gente um bocado enrascada, com a recessão aí à espreita, e os patrões aproveitam-se dos medos das pessoas e sentem-se muito cheios de consciência cívica. Claro que eles também suam, suponho, e têm mais a perder.
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Mas se eu tivesse algum bom conselho a dar-lhes, tê-lo-ia seguido pessoalmente. Tê-lo-ia guardado só para mim. Querem saber o significado da vida? A vida é um agregado, um agregado de todas as vidas que já foram vividas no planeta Terra. Esse é o significado da vida.

Martin Amis, in Money.

Dinheiro. A origem de todos os problemas. Talvez a vida fosse mais fácil sem ele, não sei. Sem ele existir, claro, nada de confusões, que sem ele não é nada fácil, posso garantir-vos. Ainda tenho alguns trocos. Não vou dizer quanto tenho, para aligeirar as minhas lamúrias. Pouco, já com o subsídio de desemprego incluído. O pior nem é isso. O pior é que isso é tudo o que tenho. Como todos os vícios, o dinheiro deixou-nos sós. E agora que nos abandonou, não temos nada. Ah, tenho meio maço de cigarros! Algum proto-moralista de serviço que diga que podia poupar! Juro que uso um palavrão para o primeiro que ousar! E se ousar em pensamento apenas, já sabem o que tenho para vos dizer. Badamerdas, seus badamecos!

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