quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Ela canta, pobre ceifeira



Ela canta, pobre ceifeira,
Julgando-se feliz talvez;
Canta, e ceifa, e a sua voz, cheia
De alegre e anónima viuvez,

Ondula como um canto de ave
No ar limpo como um limiar,
E há curvas no enredo suave
Do som que ela tem a cantar.

Ouvi-la alegra e entristece,
Na sua voz há o campo e a lida,
E canta como se tivesse
Mais razões p'ra cantar que a vida.

Ah, canta, canta sem razão!
O que em mim sente 'stá pensando.
Derrama o meu coração
A tua incerteza voz ondeando!

Ah, poder ser tu, sendo eu!
Ter a tua alegre inconsciência
E a consciência disso! Ó céu!
Ó campo! Ó canção! A ciência

Pesa tanto e a vida é tão breve!
Entrai por mim dentro! Tornai
Minha alma a vossa sombra leve!
Depois, levando-me, passai!

Poema de Fernando Pessoa.



Se algum dia quiserem saber deste que aqui escreve, não da máscara, mas da pessoa, da pessoa com sonhos e frustrações, da pessoa que ama e que sofre, enfim, que come e dorme - se algum dia quiserem saber deste que ocupa assim o seu tempo, nestes pequenos nadas, então leiam este poema de Fernando Pessoa. O resto não interessa.

2 comentários :

  1. Não conhecia o poema.
    Quanto ao teu pequeno texto, porquê tanto pessimismo?

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  2. Pinguim, um dia disseste-me que não «incensavas» (entre aspas, porque não sei se é assim que se escreve, e não estou com a digníssima pachorra para ir verificar) como único o Fernando Pessoa. Porque digo isto, apenas porque me lembrei disso agora. Adiante. Se não conhecias este poema, tens urgentemente que ler Fernando Pessoa. (ou não).

    Quanto ao meu pessimismo. Bem, o meu pessimismo é um traço (ou disposição). E quando se alia a um estado, fica potenciado. Pessimismo ao quadrado. É a chamada vidinha, só isso.

    Um forte abraço.

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