sábado, 3 de setembro de 2011

Citação, 9 - José Saramago

José Saramago - fotografia de Sebastião Salgado


Ainda não tirei a limpo se o Saramago batia ou não na primeira mulher. Não quero saber. Reconheço a sensatez dos que dizem que interessam os livros, não os escritores, interessa pouco aquilo que pensam sobre o mundo, é irrelevante a sua vida privada. Fossemos nós, leitores, à procura, em quem lemos, de exemplos de vida, heroicidade, liberdade, valores sólidos, e ficávamos à míngua, sem nada para ler. Está tudo muito bem. É assim mesmo que deve ser. E, no entanto, foi a descoberta da intimidade, a dança das rotinas diárias, a partilha de um amor maior que a vida, essa extraordinária capacidade de encontrar o sagrado nos gestos profanos, banais e indignos, que me levou a ler um escritor, por mim, há muito, proscrito. 

Ana Cássia Rebelo, no blog ana de amsterdam: Saramago (1); e Saramago (2).


José Saramago é um dos meus escritores dilectos; na minha contabilidade de obras lidas e não lidas de José Saramago, ainda me faltam ler, se não me engano, dois romances, as obras teatrais - exceptuando a última que publicou - talvez algumas crónias, porque não comprei as obras O Caderno, e O Caderno 2 - suponho que os textos que incluem tivessem sido publicados no blog que o autor manteve na internet, e que acompanhei desde sempre -, e os diários Cadernos de Lanzarote, excepto o último, o Diário-V, que li.
Quanto ao Prémio Nobel, é simples: José Saramago podia orgulhar-se do ter recebido - os outros limitavam-se a invejá-lo. Porém, a inveja nunca conduz a bons resultados. Quanto ao resto, citando o próprio José Saramago: «Um escritor é um homem como os outros: sonha.»

6 comentários :

  1. eu acho sempre, e estes dois textos da ana de amsterdam comprovam-no, que só antipatiza com a pessoa do Saramago quem não conhece o narrador dos romances. é impossível não amar apaixonadamente o narrador-saramago, a sua visão do mundo, a sua ironia terna, o humor desarmante, a coloquialidade, o amor pelos personagens.
    dito isto, li (e tenho e consulto amiúde) os cadernos de lanzarote, e admito que aí, por vezes, o tipo me irrita. mas como diz essa frase final que citas, é esse o seu maior encanto.

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  2. Eu tenho sempre que separar o escritor, do homem por detrás dele; no caso de Saramago, a antipatia pelo homem, não se suaviza com o que o Miguel descreve sobre ele: não esqueço o PREC e a sua passagem pelo DN, e confesso, a simpatia nunca foi o seu forte.
    Há um outro exemplo, que os que me conhecem melhor saberão entender, pois foi um caso pessoal: José Carlos Ary dos Santos.

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  3. Olá Innersmile, subscrevo inteiramente as tuas palavras. Sempre gostei muito das obras de Saramago. Só me importa a vida literária dos autores. Abraço.

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  4. Olá Pinguim, já esperava que dissesses qualquer coisa do género. E conheço a história que referes, relativa ao José Carlos Ary dos Santos. Um forte abraço.

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  5. A mim importa saber é da obra dos autores. A vida privada isso já não interessa.

    Quantos escritores que são uns "diabinhos" a nivel de personalidade e têm uma obra invejável?


    Boas leituras

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  6. miGuel pesTana, concordo plenamente com a tua opinião. No entanto, reconheço que conhecendo (ainda que sem querer, isto é, sem procurar) a vida privada de alguns trastes, se torne difícil dar atenção às suas obras artísticas. Mas, em geral, suporto isso bem. Agora, custa-me acreditar como é que alguns génios literários puderam apoiar e defender (é um exemplo) regimes como o de Hitler [mesmo quando as atrocidades já eram amplamente conhecidas, e fora já derrotado]...

    Obrigado pela visita e comentário. Abraço

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