sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Revolutionary Road - de Richard Yates


O que a Revista Sábado tem de bom são os livros que se vendem em conjunto, por preços acessíveis. Quando se consegue comprar só o livro, junta-se o útil ao agradável, porque de resto é uma revista para folhear tal como as outras, ainda que os temas de capa sejam frequentemente interessantes até serem lidos. Assim, sempre que a revista sai para as bancas acompanhada, e que me apercebo, compro o conjunto. Embora ao fim de três ou quatro números seguidos tenda a perguntar se vendem o livro em separado. Deste modo tenho para ali uma estante só com livros desta colecção - não são mais porque nem sempre me apercebo que a revista vem acompanhada, e porque muitos dos títulos que são publicados já os tenho; ainda assim, por vezes compro na mesma, para oferecer. 

Foi assim que me chegou o romance Revolutionary Road, de Richard Yates às estantes, e por lá ficou à espera da sua vez para ser lido. Pelos vistos houve uma adaptação cinematográfica recente, com Leonardo di Caprio e Kate Winslet, realizada por Samuel Mendes

De acordo com o artigo da Wikipédia sobre este romance, o autor terá dito a propósito do mesmo: «If my work has a theme, I suspect it is a simple one: that most human beings are inescapably alone, and therein lies their tragedy.» Eu não confio muito em informações que circulam pela internet e pela wikipédia, razão pela qual não sei se o disse ou não, mas é isso mesmo - embora a minha opinião seja um pouco mais radical - e, ainda que mais razões não houvesse, só por causa disto é um romance de leitura obrigatória. Isto é, se é que ainda há alguém que não o saiba: que todos os seres humanos são inexoravelmente sozinhos.

Corajoso! Mas que raio de treta era aquela? Como é que um homem podia ser corajoso se nem sequer estava vivo? Porque a questão toda era essa. Era esse o aspecto de Frank quando tinha aparecido nessa tarde de Março: um homem sem vida, a andar, a falar e a sorrir.
(...)
Ele estava tão horrivelmente humilde! Tinha ficado ali sentado, a compor o vinco das calças por cima dos joelhos, a sacudir pequenos flocos de cinza do colo e a segurar a bebida com o mindinho dobrado por baixo do copo, como segurança. E tinha uma nova maneira de se rir: uma risadinha suave e afectada. Não se conseguia imaginá-lo a rir-se realmente, ou a chorar realmente, ou a suar ou a comer ou a embebedar-se ou a excitar-se realmente - ou mesmo a manter-se de pé sozinho. Por amor de Deus, ele parecia alguém que se podia chegar ao pé dele, sacudi-lo e atirá-lo ao chão, que tudo o que ele faria era ficar ali estendido a desculpar-se por se ter metido à frente. Por isso, quando ele finalmente tinha vindo com aquele assunto a respeito de ter encontrado o bilhete ("Francamente, acho que me tinha matado se não fosse aquilo"), mal se tinha contido de dizer, "Oh tretas! És um sacana mentiroso, Wheeler, tu nunca ias ter coragem."
E foi ainda pior do que isso: ele estava um chato. Devia ter passado pelo menos uma hora a falar do seu emprego imbecil, e sabe Deus quantas horas a falar do seu outro assunto favorito: "o meu analista isto, o meu analista aquilo" - Frank tinha-se transformado numa daquelas pessoas que querem falar da bodega do analista o tempo todo.

Excerto de Revolutionary Road, de Richard Yates.

2 comentários :

  1. Não li o livro, mas vi o filme: é muito difícil de entender o filme, e talvez a leitura do livro ajude.

    ResponderEliminar
  2. Foi um daqueles livros que li num ápice. Quanto a compará-lo com o filme a que deu origem, não me posso pronunciar, uma vez que não vi. Mas conhecendo o livro, parece-me que é uma mensagem assaz complicado de transmitir num filme. Infelizmente fazem-se muitos filmes que não seriam feitos não fosse o tentarem explorar o filão da história de um livro. Abraço

    ResponderEliminar

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...