domingo, 21 de agosto de 2011

Alexandre O'Neill deixou de estar aqui há 25 anos


Há 25 anos que deixou de estar aqui quem falou. E Alexandre O'Neill (1924-1986) falou sempre o que quis e como quis. Agora que a cultura foi abandonada à sua (pouca? falta de?) sorte, não se vê por aí qualquer homenagem a este grande Poeta português - talvez seja melhor assim: antes assim que vê-los, a esses algozes da cultura, esses abutres dos votos, caçadores de minutos de fama na fama alheia, a rondar quais hienas. Como forma de homenagem deixo aqui quatro poemas. Podem também ler o poema Amigo aqui e o poema Há palavras que nos beijam aqui.


Redacção

Uma senhora pediu-me
um poema de amor.

Não de amor por ela,
mas «de amor, de amor».

À parte aquelas
trivialidades «minha rosa, lua do meu céu interior»
que podia eu dizer
para ela, a não destinatária,
que não fosse por ela?

Sem objecto, o poema
é uma redacção
dos 100 Modelos
de Cartas de Amor.




Um Adeus Português

Nos teus olhos altamente perigosos
vigora ainda o mais rigoroso amor
a luz dos ombros pura e a sombra
duma angústia já purificada

Não tu não podias ficar presa comigo
à roda em que apodreço
apodrecemos
a esta pata ensanguentada que vacila
quase medita
e avança mugindo pelo túnel
de uma velha dor

Não podias ficar nesta cadeira
onde passo o dia burocrático
o dia-a-dia da miséria
que sobe aos olhos vem às mãos
aos sorrisos
ao amor mal soletrado
à estupidez ao desespero sem boca
ao medo perfilado
à alegria sonâmbula à vírgula maníaca
do modo funcionário de viver

Não podias ficar nesta casa comigo
em trânsito mortal até ao dia sórdido
canino
policial
até ao dia que não vem da promessa
puríssima da madrugada
mas da miséria de uma noite gerada
por um dia igual

Não podias ficar presa comigo
à pequena dor que cada um de nós
traz docemente pela mão
a esta pequena dor à portuguesa
tão mansa quase vegetal

Mas tu não mereces esta cidade não mereces
esta roda de náusea em que giramos
até à idiotia
esta pequena morte
e o seu minucioso e porco ritual
esta nossa razão absurda de ser

Não tu és da cidade aventureira
da cidade onde o amor encontra as suas ruas
e o cemitério ardente
da sua morte
tu és da cidade onde vives por um fio
de puro acaso
onde morres ou vives não de asfixia
mas às mãos de uma aventura de um comércio puro
sem a moeda falsa do bem e do mal

Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti



Sei os teus seios

Sei os teus seios.
Sei-os de cor.

Para a frente, para cima,
Despontam, alegres, os teus seios.

Vitoriosos já,
Mas não ainda triunfais.

Quem comparou os seios que são teus
(Banal imagem) a colinas!

Com donaire avançam os teus seios,
Ó minha embarcação!

Porque não há
Padarias que em vez de pão nos dêem seios
Logo p'la manhã?

Quantas vezes
Interrogastes, ao espelho, os seios?

Tão tolos os teus seios! Toda a noite
Com inveja um do outro, toda a santa
Noite!

Quantos seios ficaram por amar?

Seios pasmados, seios lorpas, seios
Como barrigas de glutões!

Seios decrépitos e no entanto belos
Como o que já viveu e fez viver!

Seios inacessíveis e tão altos
Como um orgulho que há-de rebentar
Em deseperadas, quarentonas lágrimas...

Seios fortes como os da Liberdade
-Delacroix-guiando o Povo.

Seios que vão à escola p'ra de lá saírem
Direitinhos p'ra casa...

Seios que deram o bom leite da vida
A vorazes filhos alheios!

Diz-se rijo dum seio que, vencido,
Acaba por vencer...

O amor excessivo dum poeta:
"E hei-de mandar fazer um almanaque
da pele encadernado do teu seio"

Retirar-me para uns seios que me esperam
Há tantos anos, fielmente, na província!

Arrulho de pequenos seios
No peitoril de uma janela
Aberta sobre a vida.

Botas, botirrafas
Pisando tudo, até os seios
Em que o amor se exalta e robustece!

Seios adivinhados, entrevistos,
Jamais possuídos, sempre desejados!

"Oculta, pois, oculta esses objectos
Altares onde fazem sacrifícios
Quantos os vêem com olhos indiscretos"

Raimundo Lúlio, a mulher casada
Que cortejastes, que perseguistes
Até entrares, a cavalo, p'la igreja
Onde fora rezar,
Mudou-te a vida quando te mostrou
("É isto que amas?")
De repente a podridão do seio.

Raparigas dos limões a oferecerem
Fruta mais atrevida: inesperados seios...

Uma roda de velhos seios despeitados,
Rabujando,
A pretexto de chá...

Engolfo-me num seio até perder
Memória de quem sou...

Quantos seios devorou a guerra, quantos,
Depressa ou devagar, roubou à vida,
À alegria, ao amor e às gulosas
Bocas dos miúdos!

Pouso a cabeça no teu seio
E nenhum desejo me estremece a carne.

Vejo os teus seios, absortos
Sobre um pequeno ser



Gaivota

Se uma gaivota viesse
trazer-me o céu de Lisboa
no desenho que fizesse,
nesse céu onde o olhar
é uma asa que não voa,
esmorece e cai no mar.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se um português marinheiro,
dos sete mares andarilho,
fosse quem sabe o primeiro
a contar-me o que inventasse,
se um olhar de novo brilho
no meu olhar se enlaçasse.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se ao dizer adeus à vida
as aves todas do céu,
me dessem na despedida
o teu olhar derradeiro,
esse olhar que era só teu,
amor que foste o primeiro.

Que perfeito coração
morreria no meu peito morreria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde perfeito
bateu o meu coração.

6 comentários :

  1. bem lembrado, o aniversário da morte do poeta O'Neill. com ele passa-se uma coisa: dificilmente se acreditaria que fosse suportável, sem a ironia e o lirismo do poeta a lembrar-nos que há outras coisas. mas a verdade é que temos suportado.

    eu, a propósito do teu post, lembrei-me deste, entre tantos.

    Ó Portugal, se fosses só três sílabas,
    linda vista para o mar,
    Minho verde, Algarve de cal,
    jerico rapando o espinhaço da terra,
    surdo e miudinho,
    moinho a braços com um vento
    testarudo, mas embolado e, afinal, amigo,
    se fosses só o sal, o sol, o sul,
    o ladino pardal,
    o manso boi coloquial,
    a rechinante sardinha,
    a desancada varina,
    o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos,
    a muda queixa amendoada
    duns olhos pestanítidos,
    se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,
    o ferrugento cão asmático das praias,
    o grilo engaiolado, a grila no lábio,
    o calendário na parede, o emblema na lapela,
    ó Portugal, se fosses só três sílabas
    de plástico, que era mais barato!

    *

    Doceiras de Amarante, barristas de Barcelos,
    rendeiras de Viana, toureiros da Golegã,
    não há "papo-de-anjo" que seja o meu derriço,
    galo que cante a cores na minha prateleira,
    alvura arrendada para ó meu devaneio,
    bandarilha que possa enfeitar-me o cachaço.

    Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,
    golpe até ao osso, fome sem entretém,
    perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,
    rocim engraxado,
    feira cabisbaixa,
    meu remorso,
    meu remorso de todos nós...

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  2. Era além do mais, um homem muito simples. Almoçava, nos anos sessenta, muitas vezes, numa tasca - "A Tasca do Serafim", onde eu comia todos os dias, pois a sua companheira leccionava no British Council, e a tasca era mesmo em frente.
    Belos tempos...

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  3. Um poeta admirável, uma pessoa encantadora... um eterno adolescente.

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  4. innersmile, obrigado pelo poema. É por causa de autores como o Alexandre O'Neill que muitos políticos tremem quando ouvem falar de Cultura. A Esquerda finge apoiá-la, a Direita despreza-a abertamente. Mas talvez seja melhor assim...

    Abraço

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  5. Olá João,

    Como eu te invejo. É o José Carlos Ary dos Santos, é o Alexandre O'Neill... Quem mais? Quem me dera ter tido esse privilégio. Abraço.

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  6. Olá Manuel Poppe,

    Penso que para alguém como o Alexandre O'Neill suportar muitos dos acontecimentos que se lhe atravessaram na vida, ser um «eterno adolescente» seria, a par da poesia, uma forma de escape. Abraço.

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