terça-feira, 19 de julho de 2011

Profecias de Gonçalo Annes Bandarra



Sente Bandarra as Maldades do Mundo e Particularmente as de Portugal:


I

Como nas Alcaçarias
Andam os couros às voltas,
Assim vejo grandes revoltas
Agora nas Cleresias.

II

Porque usam de Simonias
E adoram os dinheiros,
As Igrejas, pardieiros,
Os corporais por mais vias.

III

O sumagre com a cal
Faz os couros ser mociços,
Ah! quantos há maus noviços
Nessa Ordem Episcopal.

IV

Porque vai de mal a mal
Sem ordem nem regimento,
Quebrantam o mandamento,
Cumprem o mais venial.

V

Também sou oficial
Sei um pouco de cortiça
Não vejo fazer justiça
A todo o mundo em geral.

VI

Que agora a cada qual
Sem letras fazem Doutores,
Vejo muitos julgadores,
Que não sabem bem, nem mal.

VII

Borzeguins para calçar
Hão-de ser de cordovães.
Notários. Tabaliães
Tem o tento em apanhar.

VIII

Vê-los-eis a porfiar
Sobre um pobre ceitil,
E rapar-vos por um mil
Se vo-los podem rapar.

IX

Também sei algo brunir
Quaisquer laços de lavores:
Bacharéis, Procuradores
Aí vai o perseguir.

X

E quando lhe vão pedir
Conselho os demandões,
Como lhe faltam tostões,
Não os querem mais ouvir.

XI

Há-de ser bem assentada
A obra dos chapins largos,
A linhagem dos Fidalgos
Por dinheiro é trocada.

XII

Vejo tanta misturada
Sem haver chefe que mande;
Como quereis, que a cura ande,
Se a ferida está danada?

XIII

Tenho uma gentil sovela,
Com que coso mui direito:
Se a mulher não desse jeito,
Não olhariam para ela.

XIV

Em que seja uma donzela
Nobre, casta e oradora
Ela é a causadora,
Do que acontecer por ela.

XV

Sei também mui bem coser
Uns borzeguins Cordoveses;
Todos os trajos Franceses
Quem quer os quer já trazer.

XVI

Os que não têm que comer
Fazem trajos mui prezados,
Ficam pobres, Lazarados
Por outros enriquecer.

3 comentários :

  1. "Mudam-se tempos, mudam-se as vontades"... mas o essencial acaba por ficar sempre na mesma.
    Gostei dos sublinhados.

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  2. Nas profecias basta prever o pior, que acaba sempre por acontecer. Não tem emenda o ser humano, e a civilização mais não é que pó-de-arroz...

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