sábado, 16 de julho de 2011

páginas dispersas de um diário, 3


Trago comigo o sono de anos. O sono de noites sem fim, de noites em que mil faces passadas, distantes, perdidas, me vieram acordar. Em que mil fantasmas e demónios não me deixaram dormir. Trago comigo o cansaço de uma insónia maior que a minha vida. De uma insónia que começou antes de mim e se projecta para além de mim. Do intervalo que sou. Trago comigo a insónia de uma existência passada e de outra futura. Trago comigo a insónia de não ter dormido, e a insónia daquilo que não dormirei. Trago comigo a Dor do que sofri, e a Dor do que sofrerei.

Tanto para fazer amigos como para fazer inimigos, a vida é demasiado curta. Amor e Ódio são dois sentimentos cansativos, que consomem depressa o pequeno pavio a que chamamos Vida. Por isso são dois sentimentos abomináveis. Confesso que são crimes que já cometi. Mas não deixarei que me acusem de tal pecado. Que não me acuse ninguém de ser seu amigo ou seu inimigo. Aqueles a quem roubei a vida, a eles me confessei.

Quarta-feira. A semana vai a meio. O meu ócio interrompido por estas actividades a que chamam humanas; por estas coisas a que damos um sentido, ignorando que nada tem sentido. Porque tudo se perde, e não me venham com teorias químicas nem com misticismos! Para mim valem o mesmo! Não!, nada tem sentido. É tudo ilusão! Agora trabalhar! Que perca de tempo inadmissível! Sim, eu sei que o perco também, mas não é por convicção: é apenas um meio de sobrevivência! Que o nosso lugar não é entre prédios a perder de vista, numa selva de betão e aço! O nosso lugar é na savana; vagabundos perdidos criámos mentiras pensando que criávamos casas!

Estaremos sempre perdidos, em busca de algo que desconhecemos; e ainda que encontremos, nem assim poderemos descansar, porque não saberemos o que encontrámos! Claro, isto é apenas uma dor de cabeça; uma má-disposição congénita.

Ah! Como detesto estar apaixonado! Esta absoluta perca de controlo sobre as emoções, como é irritante! Como é ridículo, querer esquecer-te e pensar mais em ti! Querer apagar-te da minha memória, e sonhar contigo! Os sonhos são cada vez mais reais; sinto o teu corpo colado ao meu; os nossos lábios cosidos, os nossos dedos entrelaçados como duas linhas enoveladas no mesmo novelo. Como isto é absurdo! Estas imagens que me fazem não querer acordar, e me alteram o humor ao despertar...


Páginas dispersas de um diário anterior.

4 comentários :

  1. É exactamente assim.
    Não é possível ficar indiferente ao que escreve.
    Gosto muito.

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  2. Estar apaixonado é uma coisa absurda e doentia; mas é fundamental para se poder amar!

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  3. La única tecla que da la música es la que está aprisionada por el pianista. Las otras aunque existen deben enmudecer para que la música ocupe todo el espacio - tiempo. Luego con todos los acordes, una melodía resuena, grata y única.
    Besito André

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  4. É absurda e doentia, mas sem paixão vive-se meio morto, Pinguim.
    E é verdade, Lyn, a paixão é exclusivista e toma conta de nós por inteiro.

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