segunda-feira, 11 de julho de 2011

páginas dispersas de um diário, 2



Tenho lido «Todos os Nomes» de José Saramago. Ao mesmo tempo tenho em aberto «As Flores do Mal» de Charles Baudelaire, «Retrato do Artista quando Jovem» de James Joyce, e «Dom Quixote de La Mancha» de Miguel de Cervantes, numa edição em dois volumes... Nunca consigo ler apenas um livro de cada vez. A não ser quando começo e leio de uma assentada... No final do mês sai o novo livro do José Saramago, «Ensaio sobre a Lucidez», segundo o próprio, "um escândalo do caraças"...

Tinha começado a escrever. Algumas páginas atabalhoadas, um projecto de um projecto qualquer, que acabou por ser coisa nenhuma. Acabei por deitar tudo fora. Agora já há muito tempo que não escrevo uma linha - uma frase, um verso, uma coisa qualquer. Tenho para ali o rascunho de um romance, que me ocupou durante alguns meses o pensamento, mas com o passar do tempo, não sei se ainda se aproveita o título. Começo sempre pelo título. Sem título é como se não existisse. Assim, com o título, existe sem existir. Talvez rasgue aquele amontoado de folhas. É esse o seu destino. Cada livro tem o seu. Tal como salto de leitura em leitura, também salto de projecto em projecto: as palavras vão-se repetindo; vão sendo uma e outra vez as mesmas, como é a mesma a Dor. É uma repetição monótona, como monótona é a vida. É dizer sempre o mesmo de maneira diferente, com as mesma palavras. É entediante, e cansativo... É a mesma e silenciosa agonia. É a mesma monstruosa opressão. São as mesmas as palavras. E de maneira diferente volto a dizer a mesma Dor.

Terça-Feira. O dia todo sem nada para fazer. Como amo - e odeio, odeio! - o ócio! Sim, sem nada para fazer. Sem nada! Hoje não quero compromissos! Não me marquem encontros. Não me arranjem trabalhos! Hoje não quero reuniões! Não quero computadores. Não quero faculdade. Quero ócio! Só quero ócio, e ócio apenas. Recostar-me no sofá a tarde toda! Deixa tombar a cabeça, sonolento! Hoje não quero nada, e se me perguntarem por mim, direi que não estou! E, e, e... Vão, vão passear! Eu hoje tiro folga de mim! E de vós que aí estais, e que existis em mim. Eu hoje quero ser só. Mais só que nunca. Verdadeiramente só. Só por dentro, e só por fora... Não quero convívio, não quero cafés, não quero nada! Não me aborreçam. E até amanhã!

Talvez passe a escrever os dias antes de eles terem acontecido! Sim, que isto de vir escrever todos os dias o que aconteceu é cansativo! E em vez de dizer aqui aquilo que aconteceu, direi aquilo que acontecerá! Em vez de serem os dias a fazer o meu diário, será o diário a fazer os meus dias! Porque não há-de ser assim? Qual dos dois é mais real? Se andam de mãos dadas, porque há-de ser sempre o mesmo a indicar o caminho?!
Vou começar hoje! Ou talvez amanhã!, que hoje estou de folga! Sim, estou de folga!
Sim! Estou decidido... Em vez de ser eu a escrever o meu diário, será o meu diário a escrever-me a mim! Antes, talvez desista de tudo. O melhor será abandonar a realidade dominadora e opressora. Agora quero esta outra realidade. E quero-a mais real. Isto que não foi é que aconteceu. A realidade foi um sonho! 

Óptimo! Estou confuso! Agora posso procurar outro caminho! De qualquer maneira, a mentira é a mesma...


Páginas dispersas de um diário anterior.

6 comentários :

  1. Quem sabe se é o princípio de "alguma coisa"?

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  2. Olha outro... Só que deve ser só ficção. E comigo é mesmo realidade.

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  3. Pinguim, não creio. No entanto, nunca se sabe... Abraço.

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  4. Olá Olinda,

    O que é realidade?, o que é ficção?...

    Beijinho.

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  5. Digamos que a minha realidade é a insónia (já ando melhor), que é a sua ficção. Estive agora a ler a 3ª parte, mas prefiro a 2ª-

    :)

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  6. Olá Olinda, Porém a minha ficção baseia-se (neste caso específico) na minha realidade. Porém quando transcrevemos a realidade para o papel - ou para o processador de texto do PC - deixa de ser realidade, para se tornar ficção.

    Obrigado pelas visitas e comentários. Beijinhos.

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