terça-feira, 26 de julho de 2011

A Origem do Conto do Vigário, de Fernando Pessoa


Publicado pela primeira vez em 30-10-1926, no diário Sol (Lisboa, Ano I, n.º 1), com o título «Um Grande Português», este pequeno conto - ocupa na edição da imagem acima 4 páginas - foi mais tarde republicado, em 18-08-1929, no Notícias Ilustrado (Lisboa, 2.ª série), com o título «A Origem do Conto do Vigário».

Abaixo transcrevo o conto na totalidade. Transcrito de um pequeno livro com vários contos e crónicas publicados por Fernando Pessoa em vida, ou deixados na arca à espera do seu dia.

Depois que os direitos de autor da obra de Fernando Pessoa caíram - caíram será a palavra certa? Podia dizer, "atiraram para", sei lá... - no domínio público é esta a completa javardice a que se assiste: Como é possível quererem vender um livro - segundo as normas da UNESCO nem sequer chega a ser livro, pois não tem as necessárias 48 páginas; podemos portanto chamar-lhe «coisa», essa «coisa» que se vê na imagem acima -, como é possível quererem vender uma coisa em que apenas 4 das 36 páginas são do autor, por 5,95€? - Se isto não é de «vigarista», não sei o que o será...

Será que não há ninguém com tomates neste País?! Não há por aí ninguém que proteja e defenda o Património Cultural deste País? Perdoem-me o tom coloquial (ou brejeiro, não se ofendam), porém dá-me asco - ou nojo - assistir à pouca-vergonha, descaramento, ou outra coisa qualquer, com que o nome de Fernando Pessoa é usado, abusado, e aproveitado. Se os direitos de autor da obra de Fernando Pessoa são do domínio público, que haja alguém - pessoa, instituição, ou Ministério (Secretaria de Estado, vá) - que zele pela sua preservação e protecção! E não, este não é um dos piores exemplos. E não, a obra de Fernando Pessoa não é a única que precisa de preservação e protecção!


Abaixo, o conto completo.


Vivia há já não poucos anos, algures, num concelho do Ribatejo, um pequeno lavrador, e negociante de gado, chamado Manuel Peres Vigário.
Da sua qualidade, como diriam os psicólogos práticos, falará o bastante a circunstância que dá princípio a esta narrativa. Chegou uma vez ao pé dele certo fabricante ilegal de notas falsas, e disse-lhe: «Sr. Vigário, tenho aqui umas notazinhas de cem mil réis que me falta passar. O senhor quer? Largo-lhas por vinte mil réis cada uma.» «Deixa ver», disse o Vigário; e depois, reparando logo que eram imperfeitíssimas, rejeitou-as: «Para que quero eu isso?», disse; «isso nem a cegos se passa.» O outro, porém, insistiu; Vigário cedeu um pouco regateando; por fim fez-se negócio de vinte notas, a dez mil réis cada uma.
Sucedeu que dali a dias tinha o Vigário que pagar a uns irmãos negociantes de gado como ele a diferença de uma conta, no valor certo de um conto de réis. No primeiro dia da feira, em a qual se deveria efectuar o pagamento, estavam os dois irmãos jantando numa taberna escura da localidade, quando surgiu pela porta, cambaleando de bêbado, o Manuel Peres Vigário. Sentou-se à mesa deles, e pediu vinho. Daí a um tempo, depois de vária conversa, pouco inteligível da sua parte, lembrou que tinha que pagar-lhes. E, puxando da carteira, perguntou se, se importavam de receber tudo em notas de cinquenta mil réis. Eles disseram que não, e, como a carteira nesse momento se entreabrisse, o mais vigilante dos dois chamou, com um olhar rápido, a atenção do irmão para as notas, que se via que eram de cem.
Houve então a troca de outro olhar.
O Manuel Peres, com lentidão, contou tremulamente vinte notas, que entregou. Um dos irmãos guardou-as logo, tendo-as visto contar, nem se perdeu em olhar mais para elas. O vigário continuou a conversa, e, várias vezes, pediu e bebeu mais vinho. Depois, por natural efeito da bebedeira progressiva, disse que queria ter um recibo. Não era uso, mas nenhum dos irmãos fez questão. Ditava ele o recibo, disse, pois queria as coisas todas certas. E ditou o recibo – um recibo de bêbedo, redundante e absurdo: de como em tal dia, a tais horas, na taberna de fulano, e «estando nós a jantar (e por ali fora com toda a prolixidade frouxa do bêbedo...), tinham eles recebido de Manuel Peres Vigário, do lugar de qualquer coisa, em pagamento de não sei quê, a quantia de um conto de réis em notas de cinquenta mil réis. O recibo foi datado, foi selado, foi assinado. O Vigário meteu-o na carteira, demorou-se mais um pouco, bebeu ainda mais vinho, e daí a um tempo foi-se embora.
Quando, no próprio dia ou no outro, houve ocasião de se trocar a primeira nota, o que ia a recebê-la devolveu-a logo, por escarradamente falsa, e o mesmo fez à segunda e à terceira... E os irmãos, olhando então verdadeiramente para as notas, viram que nem a cegos se poderiam passar.
Queixaram-se à polícia, e foi chamado o Manuel Peres, que, ouvindo atónito o caso, ergueu as mãos ao céu em graças da bebedeira providencial que o havia colhido no dia do pagamento. Sem isso, disse, talvez, embora inocente, estivesse perdido.
Se não fosse ela, explicou, nem pediria recibo, nem com certeza o pediria como aquele que tinha, e apresentou, assinado pelos dois irmãos, e que provava bem que tinha feito o pagamento em notas de cinquenta mil réis. «E se eu tivesse pago em notas de cem», rematou o Vigário «nem eu estava tão bêbedo que pagasse vinte, como estes senhores dizem que têm, nem muito menos eles, que são homens honrados, mas receberiam.» E, como era de justiça foi mandado em paz.
O caso, porém, não pôde ficar secreto; pouco a pouco se espalhou. E a história do «conto de réis do Manuel Vigário» passou, abreviada, para a imortalidade quotidiana, esquecida já da sua origem.
Os imperfeitíssimos imitadores, pessoais como políticos, do mestre ribatejano nunca chegaram, que eu saiba, a qualquer simulacro digno do estratagema exemplar. Por isso é com ternura que relembro o feito deste grande português, e me figuro, em devaneio, que, se há um céu para os hábeis, como constou que o havia para os bons, ali lhe não deve ter faltado o acolhimento dos próprios grandes mestres da Realidade – nem um leve brilho de olhos de Macchiavelli ou Guicciardini, nem um sorriso momentâneo de George Savile, Marquês de Halifax.

2 comentários :

  1. Não conhecias? Fico contente por te mostrar um outro lado do Fernando. E poupaste 5,95€... Abraço

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