domingo, 10 de julho de 2011

Cem Sonetos de Amor - de Pablo Neruda

Minha feia, tu és uma castanha despenteada,
minha bela, tu és formosa como o vento,
minha feia, da tua boca podem fazer-se duas,
minha bela, teus beijos são frescos como melancias.

Minha feia, onde estão escondidos os teus seios?
São minúsculos como duas taças de trigo.
Gostaria de ver duas luas no teu peito:
as gigantescas torres da tua soberania.

Minha feia, o mar não tem na sua loja as tuas unhas,
minha bela, flor a flor, estrela por estrela,
onda por onda, amor, contei o teu corpo:

minha feia, amo-te pela tua cintura de ouro,
minha bela, amo-te por uma ruga na tua fronte,
amor, amo-te por seres clara e seres escura.


Soneto XX, da obra Cem Sonetos de Amor, de Pablo Neruda. Como o título da obra indica, são cem sonetos. Sonetos de Amor. Divididos em quatro partes, Manhã, Meio-Dia, Tarde, Noite. A obra é dedicada a Matilde Urrutia: «Senhora minha muito amada, grande foi o meu sofrimento ao escrever estes mal chamados sonetos, que bastantes dores me causaram, mas a alegria de tos oferecer é maior que um prado.» Escreve Pablo Neruda no início da dedicatória. Este é um dos sonetos de que mais gosto (como escolher um, se são todos tão bons, se todos eles nos transmitem um pouco desse Amor de que o poeta parece transbordar?), um soneto que umas vezes leio num tom solene, outras num tom irónico, umas vezes sério, outras vezes na brincadeira. Porque o Amor é! E ao ser, é tudo e é nada. Umas vezes manhã, outras vezes tarde, umas vezes noite, outras vezes dia. Às vezes alegria, outras vezes tristeza. Tantas vezes riso, outras tantas choro. Uma obra para quem ama, e para quem não ama. Para quem está apaixonado, e para quem não está. Para quem já esteve, e para quem estará.

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