sexta-feira, 8 de julho de 2011

Os Amantes Voluntários de Manuel Poppe


Noite. Um quarto de hotel de luxo. Em cena Marike E. e Giacomo G., à vontade. A cama desfeita. Clima de desordem e intimidade. Parece ligar as personagens consentimento, cumplicidade, curiosidade, agressividade, cansaço e, também, o que o espectador imaginar que sucedeu antes: que os dois corpos se tiveram.

(...)

Giacomo - Gostas de mim?

Marike - Gosto muito!...

Giacomo - Como da outra vez...

Marike - Como da outra vez...

Giacomo - Há vinte anos?

Marike - Há vinte anos!

Ficam a olhar convictos, abraçados. O pano cai lentamente.
Logo a seguir se levanta. Marike e Giacomo desapareceram. Está um senhor, vestido de escuro, em cena.

Manuel Poppe, in Os Amantes Voluntários - farsa quase trágica em 1 acto, editorial teorema (2.ª Edição Revista). Janeiro de 2000.


Veneza, concreta e fantástica, decadente e magnífica, próxima e secreta. Uma noite, na vida de um homem e uma mulher. Desespero e raiva. A tentativa, impúdica e violenta, de recuperar e agarrar o absoluto, de o possuir e de o gozar. (Sobre a farsa quase trágica em um acto, na segunda edição revista, da editorial teorema).

Talvez seja verdade que todos os amores são a sombra daquele que nos alvoroça como um fantasma. Dois desconhecidos encontram-se em Veneza, e amam-se. Não um ao outro, mas ao Outro. Giacomo é em Livia que pensa ao amar Marike; Marike é em Daniele que pensa ao amar Giacomo. Eles são Amantes Voluntários, usando e deixando-se usar, para um no outro encontrarem o Outro que perderam há vinte anos. E de ilusão em ilusão, acabam por se convencer que são os outros que houve há vinte anos...

2 comentários :

  1. Assim num resumo de 4 frases parece uma obra de Pirandello

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  2. Sim, de facto. Ambos os autores são modernistas, e portanto os temas coincidem.

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