quinta-feira, 2 de junho de 2011

Poesia, Saudade da Prosa - de Manuel António Pina



O Medo


Ninguém me roubará algumas coisas,
nem acerca de elas saberei transigir;
um pequeno morto morre eternamente
em qualquer sítio de tudo isto.


É a sua morte que eu vivo eternamente
quem quer que eu seja e ele seja.
As minhas palavras voltam eternamente a essa morte
como, imóvel, ao coração de um fruto.


Serei capaz
de não ter medo de nada,
nem de algumas palavras juntas?


in "Nenhum Sítio"





Amor como em Casa


Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraído percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa.


in "Ainda não é o Fim nem o Princípio do Mundo. Calma é Apenas um Pouco Tarde"


A Assírio & Alvim apresenta, no próximo dia 4 de Junho, às 16h00, no auditório da Feira do Livro Porto, o mais recente livro de Manuel António Pina, «Poesia, Saudade da Prosa — uma antologia pessoal». Para quem tiver a oportunidade, deixo a informação. Para quem não tiver a oportunidade, deixo estes dois poemas de Manuel António Pina, para vos aguçar a curiosidade pela obra deste autor. Manuel António Pina, foi o último vencedor do Prémio Camões, no passado dia 12 de Maio.

2 comentários :

  1. Gosto muito da poesia do Manuel António Pina, e também das crónicas no JN. As obras de literatura infantil e outras não conheço. Abraço

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