sábado, 25 de junho de 2011

páginas dispersas de um diário, 1




Autonomia. Liberdade. Tudo conceitos. Demasiado vagos. Demasiado concretos. Não depender de Nada, nem de Ninguém. Ter só um livro para ler, e não o fazer. Como tu dizias, meu querido Fernando. O que é isto a que chamam Vida? Ter uma estante inteira, só para ti, que não quiseste ser célebre. Que plebeísmo! Como podem trair-te tanto, trair tanto a tua vontade, aqueles que te amam? Sabes, tu circulas nas minhas veias, no meu ser, desde aquelas longas tardes de tédio, em que te encontrei nas páginas de um livro que tinha para ler. E depois outro. E outro. E outro. E outro. E outro. E tu, no fim, onde estavas? Ah!, tu atingiste o mais elevado que pode o Homem - falta-me a palavra - almejar: o mito!


Autonomia. Liberdade. Que conceitos são estes? Estaremos algum dia livres, autónomos? Não será sempre uma ilusão. Um ilusão que vamos construindo ao longo da vida, até nos esquecermos que é apenas uma ilusão? Mas antes ser ceifeira e ser feliz?! Talvez. Mas, Oh Fernando, eu não consigo! Cada ideia defensável ou refutável, cada sensação sensível, cada pensamento, me oprime, me prende. Me dói. E as ideias, sensações, pensamentos que não tenho, que não encontro, que não alcanço, todas me doem, ao contrário, pela sua falta. Como o Amor. O Amor que tenho e o que não tenho, ambos por igual me prendem. Um porque o tenho, outro porque o não tenho. Um porque me oprime a sua presença, outro porque me oprime a sua falta. E tudo assim, em mim.

Estou em tumulto por dentro. Histérico por dentro. Histeria para dentro, como tu definias. Estou assim, triunfal como o Álvaro. A minha sensibilidade é dolorosa, como a Passagem das Horas. E nenhuma Ode a poderá acalmar.

E assim acaba mais uma aula, Fernando. Tenho tudo para fazer, e nenhuma vontade. Ando cansado... E quando tenho eu feito alguma coisa? Fraco! Ó Bernardo, ao menos tu tinhas o patrão Vasques e um emprego. E quando querias, do teu quarto, observavas a Rua do Douradores.



Imagem superior daqui.
Imagem inferior daqui.

4 comentários :

  1. E tu observas a vida de onde quer que seja, sempre de uma forma muito pessoal, só tua.

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  2. Nós os que estamos condenados a observar a vida... porque depois que saímos dela, para a observarmos, não somos mais seres adaptados - deixamos de poder vivê-la...

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  3. Fiquei comovida. Muito bom, o seu texto. Como eu o entendo. Obrigada!
    Vou partilhar, se não vê mal nisso.

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  4. Elisabete, claro que podes partilhar. Obrigado pelo comentário.

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