quinta-feira, 30 de junho de 2011

Os Jogadores de Xadrez - Poema de Ricardo Reis



O conflito social e político que se vive na Europa, em que as diferentes posições, e consequentes decisões económico-financeiras, representam as partes em embate, fez-me recordar o poema de Ricardo Reis, abaixo transcrito. Enquanto nas ruas, os conflitos, as manifestações, o desespero alastra, nas esferas do Poder, políticos e grupos económicos, quais jogadores de xadrez, continuam indiferentes o seu jogo.



Os Jogadores de Xadrez

Ouvi dizer que outrora, quando a Pérsia
Tinha não sei qual guerra,
Quando a invasão ardia na Cidade
E as mulheres gritavam,
Dois jogadores de xadrez jogavam
O seu jogo contínuo.

À sombra de ampla árvore fitavam
O tabuleiro antigo,
E, ao lado de cada um, esperando os seus
Momentos mais folgados,
Quando havia movido a pedra, e agora
Esperava o adversário,
Um púcaro com vinho refrescava
Sobriamente a sua sede.

Ardiam casas, saqueadas eram
As arcas e as paredes,
Violadas, as mulheres eram postas
Contra muros caídos,
Trespassados de lanças, as crianças
Eram sangue nas ruas...
Mas onde estavam, perto da cidade,
E longe do seu ruído,
Os jogadores de xadrez jogavam
O jogo de xadrez.

Inda que nas mensagens do ermo vento
Lhes viessem os gritos,
E, ao reflectir, soubessem desde a alma
Que por certo as mulheres
E as tenras filhas violadas eram
Nessa vitória próxima,
Inda que, no momento que o pensavam,
Uma sombra ligeira
Lhes passasse na fronte alheada e vaga,
Breve seus olhos calmos
Volviam sua atenta confiança
Ao tabuleiro velho.

Quando o rei de marfim está em perigo,
Que importa a carne e o osso
Das irmãs e das mães e das crianças?
Quando a torre não cobre
A retirada da rainha alta,
O saque pouco importa.
E quando a mão confiada leva o xeque
Ao rei do adversário,
Pouco pesa na alma que lá longe
Estejam morrendo filhos.

Mesmo que, de repente, sobre o muro
Surja a sanhuda face
Dum guerreiro invasor, e breve deva
Em sangue ali cair
O jogador solene de xadrez,
O momento antes desse
É ainda entregue ao jogo predilecto
Dos grandes indif'rentes.

Caiam cidades, sofram povos, cesse
A liberdade e a vida,
Os haveres tranquilos e avitos
Ardem e que se arranquem,
Mas quando a guerra os jogos interrompa,
Esteja o rei sem xeque,
E o de marfim peão mais avançado
Pronto a comprar a torre.

Meus irmãos em amarmos Epicuro
E o entendermos mais
De acordo com nós-próprios que com ele,
Aprendamos na história
Dos calmos jogadores de xadrez
Como passar a vida.

Tudo o que é sério pouco nos importe,
O grave pouco pese,
O natural impulso dos instintos
Que ceda ao inútil gozo
Sob a sombra tranquila do arvoredo)
De jogar um bom jogo.

O que levamos desta vida inútil
Tanto vale se é
A glória, a fama, o amor, a ciência, a vida,
Como se fosse apenas
A memória de um jogo bem jogado
E uma partida ganha
A um jogador melhor.

A glória pesa como um fardo rico,
A fama como febre,
O amor cansa, porque é sério e busca,
A ciência nunca encontra,
E a vida passa e dói porque o conhece...
O jogo do xadrez
Prende a alma toda, mas, perdido, pouco
Pesa, pois não é nada.

Ah, sob as sombras que sem qu'rer nos amam,
Com um púcaro de vinho
Ao lado, e atentos só à inútil faina
Do jogo do xadrez,
Mesmo que o jogo seja apenas sonho
E não haja parceiro,
Imitemos os persas desta história,
E, enquanto lá por fora,
Ou perto ou longe, a guerra e a pátria e a vida
Chamam por nós, deixemos
Que em vão nos chamem, cada um de nós
Sob as sombras amigas
Sonhando, ele os parceiros, e o xadrez
A sua indiferença.


Poema de Ricardo Reis, in. Poesia (Assírio & Alvim, pp. 59-63) - Muitos destes versos têm variantes; em alguns casos optei por uma versão diferente daquela escolhida pelo editor.

Imagem: Manifestação na Grécia.

6 comentários :

  1. É bem verdade, e não é uma realidade apenas grega deixa lá!
    Infelizmente sempre foi, é e será assim
    Gostei da comparação ;)

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  2. olá JPC4, Obrigado pelo visita. Sim, não é uma realidade apenas Grega, por isso não refiro a Grécia, embora as imagens sejam dos conflitos de lá. Atrás da Grécia pode ir a Europa toda. A dívida da Grécia é principalmente a bancos Franceses e Alemães... E quando a Grécia não pagar a esses bancos?! Porque - infelizmente - poucas dúvidas me restam: podem vir quantos planos de resgate vierem... A situação só vai piorar. E como disse George Soros, que provavelmente até está a lucrar com a situação, os Europeus só andam a comprar tempo, para adiar um problema com o qual mais cedo ou mais tarde vão ter que se confrontar... Abraço

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  3. Nem é preciso ser demasiado pessimismo (estou a referir-me ao teu comentário).

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  4. Pinguim, estávamos ambos a falar de pessimismo em comentários diferentes ;-) Sim, não é necessário ser muito pessimista... Abraço

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