segunda-feira, 27 de junho de 2011

Lisbon Revisited (1923) - Poema de Álvaro de Campos



Não: Não quero nada.
Já disse que não quero nada.



Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.

Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!

Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) —
Das ciências, das artes, da civilização moderna!

Que mal fiz eu aos deuses todos?

Se têm a verdade, guardem-na!

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?

Não me macem, por amor de Deus!

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?

Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia!

Ó céu azul — o mesmo da minha infância —
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflete!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.

Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!




Como referi num post anterior, ando sempre com um poema na cabeça. E cada conversa, cada situação, cada imagem com que me deparo, cada notícia que vejo, suscita ao menos um verso de algum poeta. Ou em último caso suscita um verso de um poema que poderei ou não escrever. É frequente que o poema em que ando a matutar, ou que por alguma razão me surge no pensamento, seja de Álvaro de Campos. Porque motivo, porque razão, não sei. Mas tenho uma série de hipóteses: porque foi o poeta que mais li. O que no caso da poesia, é o mesmo que dizer, foi o poeta a cuja obra mais vezes voltei. Porque a poesia não se lê uma vez e fica lida. Há que voltar-lhe muitas vezes. Até que o tom, o ritmo, a música, o cheiro, o ambiente, a dor, vibrem dentro de nós. E também porque é o poeta com cujas palavras mais me identifico, a par de Mário de Sá-Carneiro, Walt Whitman, ou Dylan Thomas.
Isto a propósito de ter aqui publicado o poema Lisbon Revisited (1923) de Álvaro de Campos, um poeta tantas e tantas vezes publicado na internet e blogosfera. Hoje conversava com um amigo antigo, um amigo daqueles que não vejo há quase uma vida, e que só as modernas tecnologias, neste caso o facebook, permitiram que nos reencontrássemos, ainda que não fisicamente. Chegados aos trinta, e falando de amigos daqueles tempos em que lado a lado convivemos, aos poucos verificávamos que se encontravam agora casados, com filhos, alguns já divorciados. Aí queixou-se, que não era justo, que ele continuava sozinho.
E nesse momento, este poema eclodiu no meu cérebro. Em especial os versos «Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?/ Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?/ Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade./ Assim, como sou, tenham paciência!» Claro que por tacto, para não tocar no pedaço ferido da sua alma, não lhe disse os versos. Porém, sermos quem somos, não fazermos a vontade a todos, nem a ninguém... [Sim, amigo, somos da mesma «criação», para o caso de algum dia leres estas palavras]... Tudo na vida tem um preço, um preço que habitualmente não sabemos - nem podemos saber - se teremos capacidade para pagar...


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