sábado, 18 de junho de 2011

Aprendamos, amor, com estes montes - Poema de José Saramago



Aprendamos, amor, com estes montes
Que, tão longe do mar, sabem o jeito
De banhar no azul dos horizontes.


Façamos o que é certo e de direito:
Dos desejos ocultos outras fontes
E desçamos ao mar do nosso leito. 




Portugal e o Mundo estão mais pobres, desde há um ano. E não, não falo da crise económica e financeira - na realidade, mas isso é assunto para mais palavras e disposição, a verdadeira crise é cultural e axiológica - falo da morte de José Saramago. Saramago é o primeiro Nobel da Literatura de nacionalidade e de Língua Portuguesa. Só por isso já constaria na História - que como sabemos, há-de garantir-lhe a imortalidade enquanto seres humanos houver sobre o planeta Terra, o terceiro calhau a contar do Sol. Mas não só por isso. Saramago foi dos primeiros escritores de Língua Portuguesa devidamente reconhecidos e premiados em vida. E se reconhecidos em vida já houvera muitos, todos sabemos que o reconhecimento não enche barrigas; e se premiados também já os houvera, todos sabemos que para viver, medalhas não bastam. Saramago foi também dos primeiros a retirar o devido fruto do seu trabalho.
Agora, um ano depois, as suas palavras vão acertando triste e paulatinamente nas suas previsões. Pois, como ele afirmava, para acertar nas previsões só tem que se prever o pior. E se o pior pode acontecer, o pior vai acontecer, lá diz a lei de Murphy. De tal modo que quem ler as suas crónicas - seja as mais antigas, desde Deste Mundo e do Outro, ou A Bagagem do Viajante, até às mais recentes, d' O Caderno - ou os seus diários, poderá sentir arrepios. 
Quanto à sua obra literária propriamente dita, acredito que ela fará o seu caminho, e será ainda mais reconhecida. Porque para se analisar e compreender uma obra deste vulto é necessária a devida distanciação temporal e emocional, que permita uma crítica mais isenta. E se tal é verdade na reflexão sobre qualquer obra,  mais verdade ainda o é na obra de Saramago - quer pela sua força intrínseca, quer pelas clivagens emocionais e ideológicas que as palavras e posições públicas do autor provocavam -, obra que teve, e tem, por isso arraigados admiradores e detractores.

José Saramago nasceu a 16 de Novembro de 1922, em Azinhaga, e faleceu a 18 de Junho de 2010, em Tías.

Imagem: Expresso. Poema de José Saramago, na obra Poemas Possíveis.

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