quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

160 Anos do Nascimento de Cesário Verde

Cesário Verde Poeta Jovem
Cesário Verde
Lisboa, 25 de Fevereiro de 1855 - Lumiar, 19 de Julho de 1886

Amo, pelas tardes demoradas de Verão, o sossego da cidade baixa, e sobretudo aquele sossego que o contraste acentua na parte que o dia mergulha em mais bulício. A Rua do Arsenal, a Rua da Alfândega, o prolongamento das ruas tristes que se alastram para leste desde que a da Alfândega cessa, toda a linha separada dos cais quedos tudo isso me conforta de tristeza, se me insiro, por essas tardes, na solidão do seu conjunto. Vivo uma era anterior àquela em que vivo; gozo de sentir-me coevo de Cesário Verde, e tenho em mim, não outros versos como os dele, mas a substância igual à dos versos que foram dele. Por ali arrasto, até haver noite, uma sensação de vida parecida com a dessas ruas. De dia elas são cheias de um bulício que não quer dizer nada; de noite são cheias de uma falta de bulício que não quer dizer nada. Eu de dia sou nulo, e de noite sou eu. Não há diferença entre mim e as ruas para o lado da Alfândega, salvo elas serem ruas e eu ser alma, o que pode ser que nada valha, ante o que é a essência das coisas. Há um destino igual, porque é abstracto, para os homens e para as coisas — uma designação igualmente indiferente na álgebra do mistério.

Mas há mais alguma coisa... Nessas horas lentas e vazias, sobe-me da alma à mente uma tristeza de todo o ser, a amargura de tudo ser ao mesmo tempo uma sensação minha e uma coisa externa, que não está em meu poder alterar. Ah, quantas vezes os meus próprios sonhos se me erguem em coisas, não para me substituirem a realidade, mas para se me confessarem seus pares em eu os não querer, em me surgirem de fora, como o eléctrico que dá a volta na curva extrema da rua, ou a voz do apregoador nocturno, de não sei que coisa, que se destaca, toada árabe, como um repuxo súbito, da monotonia do entardecer!

Passam casais futuros, passam os pares das costureiras, passam rapazes com pressa de prazer, fumam no seu passeio de sempre os reformados de tudo, a uma ou outra porta reparam em pouco os vadios parados que são donos das lojas. Lentos, fortes e fracos, os recrutas sonambulizam em molhos ora muito ruidosos ora mais que ruidosos. Gente normal surge de vez em quando. Os automóveis ali a esta hora não são muito frequentes; [...] No meu coração há uma paz de angústia, e o meu sossego é feito de resignação.

Passa tudo isso, e nada de tudo isso me diz nada, tudo é alheio ao meu sentir, indiferente, até, ao destino próprio, inconsciência, [...] quando o acaso deita pedras, ecos de vozes incógnitas — salada colectiva da vida.
Bernardo Soares, no Livro do Desassossego.

Mapa da Nova Europa


Cartas dos Leitores

Cartas, Correspondência, Letters, Travel, Viagem

Recebo tanta correspondência estranha, inusitada, estrambólica, bizarra, extravagante, e outros sinónimos que vossas excelências queiram utilizar, a última das quais a pedir-me 2000 dólares - apetece-me dizer que se tivesse metade me casava - (principalmente por e-mail e através do formulário de contacto), que estou a pensar abrir um consultório económico-financeiro-sentimental. Até tenho um baralho de Tarôt, portanto julgo que estou habilitado; e engendrar disparates à la Maya não exige grandes (nem pequenos) conhecimentos.

Enfim, pelo menos aqui no blog as Cartas dos Leitores não seriam inventadas como se faz nas revistas da especialidade. Só não sei se os meus caros leitores e as minhas queridas leitoras ficariam satisfeitos com as minhas respostas. Se quiserem testar-me, é só darem autorização para publicar a vossa correspondência privada (devidamente protegida com pseudónimos forjados na hora). Estejam à vontade.

(Obviamente é uma pena, para mim, para os meus caros leitores, e para as minhas queridas leitoras - que a maioria da correspondência que me é enviada não tenha qualquer aderência - para usar a palavra da moda - à realidade.)

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

A Nova Nota de Vinte Euros. Em circulação a partir do próximo dia 25 de Novembro de 2015

Vinte Euros, Vingt Euros, Twenty Euros, Bank Note, New, Nova,

Eis a nova nota de 20€, que começará a circular no próximo dia 25 de Novembro de 2015. Pena que circule cada vez por menos bolsos. Assim vai a Europa. Não é com notas novas que isto muda...

Thomas Pychon e 5 escritores reclusos | LiteratusTV #01



«Maicon Tenfen e Vilto Reis falam sobre o escritor recluso Thomas Pychon e sua obra “Vício Inerente” que foi adaptada para o cinema por Paul Thomas Anderson. Além disso, temos um Top Five de escritores reclusos.»

Estreou na passada sexta-feira, o Literatus TV, programa sobre Literatura, na FurbTV e na NBRTV (canais de cabo, no Estado de Santa Catarina, Brasil). Encontra-se agora disponível no Youtube o vídeo do primeiro episódio (o vídeo acima). Assistam.

Quarto Aniversário do Blog

Fourth Aniversary, Quarto Aniversário, Four, Quatro, 4
Quarto Aniversário do Blog
Ainda que os Amantes se Percam
O blog fez 4 anos no passado dia 11 de Fevereiro - e eu lembrei-me, porém não tive, na data, vontade de lhe dedicar um post: vamos fingir que adiámos a festa para hoje, por indisponibilidade dos convidados para estarem presentes na data; ou do aniversariante, que tinha outros compromissos.

Dia de Aniversário - não, não vou publicar mais uma vez o poema do Álvaro de Campos - é ocasião para balanços. Então, aqui vão eles:

Na data do terceiro aniversário era este o state of the art: 918 posts, 2048 comentários, 240.417 visitas (sitemeter)*, 591.224 pageviews (blogger), 166 seguidores (blogger), 651 amigos/ seguidores (facebook).

Agora, com mais alguns dias após completar 4 anos está assim: 1241 posts, 2454 comentários, as visitas do sitemeter não sei, que deixaram de funcionar, 930.772 pageviews (blogger), 184 seguidores (blogger), 1025 amigos/seguidores na página do facebook.

Resta-me agradecer a todos que por aqui vão passando, para lerem os meus disparates e coisas afins. Muito Obrigado.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Sintonia. Sinfonia. Amizade, Amor, e Outras Relações Estapafúrdias. Limites.

Fall, Love, Fall in Love, Folha, Amor
Imagem vista um dia destes no facebook, desconheço autor/a

A maioria das pessoas passam (e ficam ou seguem o seu caminho) pela nossa vida num acordo que com o tempo, por mais agradáveis que nos sejam, se torna monótono: estabelecemos relações com pessoas com as quais estamos em sintonia; pessoas que funcionam na mesma frequência que nós. Muitas, poucas, ou raras, muito depende do nosso comprimento de onda. Porém, em qualquer caso, raríssimas são as pessoas verdadeiramente especiais na nossa vida. Não basta estarmos em sintonia para fazermos do encontro com elas uma festa, como no poema de Alexandre O'Neill. Com as pessoas verdadeiramente especiais nas nossas vidas não estamos apenas em sintonia; entramos numa sinfonia: mesmo quando "falamos" em tons diferentes, nunca deixamos de estar em harmonia.

Quem não percebe isto - nunca poderá perceber certas, determinadas, e específicas relações, por mais improváveis que pareçam a olho nu. Porque estou para aqui a falar disto? Uma vez que agora quase já ninguém lê blogs, posso publicar o que me apetecer (como sempre fiz), mas sem o risco de ser (muito) incompreendido. E a única lógica da vida é não haver lógica nenhuma. Conduzamos, então, tudo aos limites do Absurdo.

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Dia dos Namorados

Nuvem, Amor, Love, Coração, HeartCloud

Pior que o Dia dos Namorados só mesmo o Natal; dificilmente pode este último ser batido em extensão e hipocrisia, uma vez que é - literalmente, um dia destes - Natal todo o ano. O Dia dos Namorados embora também tenha essa irritante característica de se esticar para outros dias, não é assim tão longo; e este ano conseguiu de certo modo passar algo despercebido - por causa do Carnaval: casa bem com a época, portanto. Fingimentos de todas as espécies.

Enfim, Dia dos Namorados, apenas mais outro dia triste e solitário.

E se? O pior que estes dias têm é que nos obrigam a fazermo-nos perguntas. E se? É a vida, apenas a vida. Sejam felizes, se puderem, se conseguirem, se... «E amanhã é Dia dos Namorados»; pois, eu sei. Só não acredito em coincidências. É apenas a vida a rir-se de nós. F-u-c-k.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

“Estamos todos em perigo” A última entrevista a Pier Paolo Pasolini - ContraDizer_05

Estamos todos em perigo A última entrevista a Pier Paolo Pasolini ContraDizer 05

A quinta sessão de ContraDizer, organizada pelo Teatro do Calafrio, terá lugar no Salão do Centro Cultural da Guarda, no próximo dia 28 de Fevereiro de 2015, pelas 21h30. Nesta sessão será lida a última entrevista ["Estamos todos em Perigo"] concedida por Pier Paolo Pasolini, antes de ser brutalmente assassinado, por Américo Rodrigues e Vasco Queiroz. Será também executada uma peça de sons e palavras intitulada «Histórias sem Corantes» por Tiago Pereira. Por fim, será apresentado o livro de contos «Lince ou Gato» de José Ferraz Alçada (pré-lançamento). Se puderem, não faltem.

Programa e Localização detalhados:

A Grécia, a Chantagem, os Neo-Cons, e a Rameira que os deu à luz...



Gostava muito de ver os defensores da lógica moralista e castigadora – sobretudo de direita, mas não só – afirmarem sem subterfúgios o que desejam. Ou seja, que consideram eticamente aceitável condenar milhões de seres humanos, crianças e velhos incluídos, à mais profunda miséria, à ausência de cuidados de saúde, ao suicídio e inanição, porque “a Grécia merece”. Mesmo admitindo a raquítica lógica de culpabilidade colectiva do povo Grego, gostava que se deixassem de merdas e admitissem que os gregos merecem morrer à fome, como faria qualquer labrego ensebado gritando do fundo dum tasco, ao ver José Rodrigues dos Santos na TV falando da preguiça helénica.

andpinto em comentário a este post, no Vida Breve.

Tenho uma pedra na cabeça no lado esquerdo anterior frontal ou nada disto, de Daniel António Neto Rocha

Tenho uma pedra na cabeça no lado esquerdo anterior frontal ou nada disto, de Daniel António Neto Rocha

No próximo dia 12 de Fevereiro de 2015 [amanhã], pelas 18h00 horas, na Sala Tempo e Poesia da Biblioteca Municipal Eduardo Lourenço, na Guarda, irá decorrer a sessão de apresentação do livro: Tenho uma pedra na cabeça no lado esquerdo anterior frontal ou nada disto, de Daniel António Neto Rocha. A apresentação estará a cargo de José Monteiro, professor, estudioso da literatura e da cultura, e poeta.

Sinopse do livro:


Aprisionada num recanto escuro do cérebro, a pedra significa e interpreta, ao mesmo tempo que oferece leituras e compreensões. Partindo da sua forma significativa, a pedra entrega-se nas mãos, nos pés, nos olhos, na imaginação ou no objecto de desejo de vários tempos e modos, surgindo nua e desprovida de vida no final da leitura. Tenho uma pedra na cabeça no lado esquerdo anterior frontal ou nada disto é o novo livro de poesia de Daniel António Neto Rocha.

Sobre o autor, Daniel António Neto Rocha (1982):

A vida de Severus Snape*



Chupa, Troika!


segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Um Circo que Passa

Juggler of Universes, Um Outro Mundo, Un Autre Monde, Another World, Queen, Innuendo
Juggler of Universes, de J. J. Grandville

Um Circo que Passa. Ainda ali está, sobre a mesinha-de-cabeceira; desde o dia 09 de Outubro de 2014 que lá está. É uma edição da Publicações Dom Quixote, com capa dura. Foi o dia em que foi anunciado que ao seu autor era atribuído o Prémio Nobel em Literatura de 2014: Patrick Modiano. Tirei-o nessa data da estante, onde estaria há uns bons 12 ou 13 anos, e tencionei (re)lê-lo; li algumas páginas; porém, desde esse dia que não voltei a pegar nele - nem em qualquer outro livro - com intenção de ler. Há quatro meses que não leio nada.

Em toda a minha vida, os livros foram a única constante; primeiro, como objectos invejados; depois emprestados; enfim, meus. Agora olho para eles e não sei: algum dia os voltarei a folhear? Algum dia os voltarei a ler? Abro um ao acaso. Olho para o primeiro parágrafo, da primeira página, para a primeira linha: leio - e nada ressoa. Não sei o que é que isto significa - ou sei bem demais: acabou!

Acordar Um Dia...

Persa, Cat, Awake, Despertar, Acordar, Gato


Acordar um dia. Noutra vida. Noutro planeta. Noutro Universo. Acordar noutra família - ou numa família. Acordar com outros amigos - ou com amigos. Um apenas, que o fosse. Com outras pessoas. Num dia que valesse a pena - viver. Apenas. Não, não vai acontecer. Nem vale a pena tirar a conclusão óbvia deste amontoado desarrazoado de palavras. Apenas um milagre - mas o único milagre é existir. Acordar no dia em que a alma dirá ao corpo que não quer/ arrastar o seu peso ao longo desta via.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Sessão de Música com Poesia

Gonçalo Maia Caetano, André Benjamim, Música, Guitarra, Poesia
Gonçalo Maia Caetano, Sportinguista, André Benjamim, Benfiquista
Sessão de Música com Poesia

Sábado, 07 de Fevereiro de 2015, no bar Joker, em Pinhel, pelas 22h00. Apareçam!


Evento no facebook.


Imagem: Pormenor do Cartaz do Evento, de Diogo Maia Caetano

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Sátira «Uma modesta proposta para prevenir que, na Irlanda, as crianças dos pobres sejam um fardo para os pais ou para o país, e para as tornar benéficas para a República» de Jonathan Swift (1729) - Texto Completo


A pedido de alguns amigos e leitores do blog, o texto completo de Jonathan Swift, «Uma modesta proposta para prevenir que, na Irlanda, as crianças dos pobres sejam um fardo para os pais ou para o país, e para as tornar benéficas para a República» (1729), lido por Vasco Queiroz, na 4.ª Sessão de ContraDizer, organizada pelo Teatro do Calafrio, na última Sexta-Feira, 30 de Janeiro de 2015:


É motivo de melancolia para aqueles que passeiam por esta grande cidade, ou que viajam pelo campo, verem nas ruas, nas estradas, e às portas das barracas, uma multidão de pedintes do sexo feminino, seguidas por três, quatro, ou seis crianças, todas em farrapos, a importunarem cada passante pedindo esmola.

Estas mães, não sendo capazes de trabalhar para angariar honestamente a vida, vêem-se forçadas a gastar todo o tempo que têm a andar por ali, a mendigar o sustento para os seus filhos desprotegidos. E estes, depois de crescerem, ou se tornam ladrões por falta de trabalho, ou abandonam o seu querido país natal para se irem alistar num exército inimigo, ou se vendem como emigrantes para os Barbados.