sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Carta Aberta de Alexis Tsipras

Imagem vista no Tempo Contado
em post sobre «Os Comentadores»

Carta Aberta de Alexis Tsipras aos Leitores do Handelsblatt (traduzida pelo Aventar):

A maior parte de vós, caros leitores do Handelsblatt, terá já uma ideia preconcebida acerca do tema deste artigo, mesmo antes da leitura. Rogo que não cedais a preconceitos. O preconceito nunca foi bom conselheiro, principalmente durante períodos em que uma crise económica reforça estereótipos e gera fanatismo, nacionalismos e até violência.

Em 2010, a Grécia deixou de conseguir pagar os juros da sua dívida. Infelizmente, as autoridades europeias decidiram fingir que o problema poderia ser ultrapassado através do maior empréstimo de sempre, sob condição de austeridade orçamental, que iria, com uma precisão matemática, diminuir drasticamente o rendimento nacional, que serve para pagar empréstimos novos e antigos. Um problema de insolvência foi tratado como se fosse um problema de falta de liquidez.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Eleições na Grécia: demorou mas aconteceu...


Há quase três anos, a 27 de Maio de 2012, publiquei este cartoon aqui no blog; demorou, mas aconteceu, os Gregos deram um valente pontapé no rabo à senhora Merkel - os Gregos decidiram que não queriam ser nem ratos de laboratório, nem escravos da Europa-Alemã. Os Gregos decidiram que não queriam morrer de joelhos, como vítimas respeitando os seus carrascos. Os Gregos escolheram o seu próprio caminho, ao invés de percorrerem um caminho que lhes impõem.

Não sei quantos obstáculos hão-de pôr no caminho dos Gregos. Não sei quantas dificuldades lhes apresentarão. Mas sei que os Gregos disseram - também - aqui mandamos nós. Que outros povos (outros países) tenham a coragem de dizer: ou caminhamos juntos, lado-a-lado, ou seguimos por caminhos separados.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Chegou o meu exemplar de Charlie Hebdo: não dou, não empresto, nem vendo (asterisco)

Charlie Hebdo

(asterisco) Claro que estou - sempre - aberto a propostas indecentes: que poderei ou não aceitar. A alma vendo sempre (não tenho); o corpo, só se estiver interessado. Por qualquer milhão de euros (não importa a proveniência; pode - e deve - ser depositado em offshore, ou pago em notas), podemos negociar a posse deste exemplar. Fazia uma selfie com ele, se tivesse um espertofone xpto. Assim, a foto acima foi o melhor que arranjei.

Post-Scriptum: (Para os mais atrevidos): nem «deixo ver»!

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

A Cerimónia do Adeus

Despedida, Adeus, Au Revoir, Goodbye

«A Cerimónia do Adeus» é o título de uma obra de Simone de Beauvoir em que a autora narra os últimos 10 anos da sua relação com o companheiro de sempre, Jean Paul-Sartre, de 1970 a 1980, ano da morte do escritor e filósofo. Ofereceram-me o livro - é apenas mais um livro que (talvez?) nunca lerei. Sinto - neste momento (corremos sempre o risco de estar enganados) - que nunca mais lerei um livro.

Encontrei a imagem acima, perdida algures na internet - como acontece com tantas outras imagens, não consegui encontrar o autor ou a autora dela. Nunca gostei de despedidas - evito-as sempre que posso, sejam despedidas para sempre, sejam despedidas que se prevêem longas, sejam simples despedidas da mesa de um café de amigos que quase todos os dias vemos. Mas não foi por isso que, ao encontrá-la, a achei adequada para este post.

Justa ou injustamente, toda a vida me senti uma criança abandonada - dentro de mim, essa criança que talvez ainda lá viva, ainda chora por dentro a lágrima que nunca deixará correr pela face. Dentro de mim, essa criança, ainda olha para trás, esperando quem nunca virá para lhe dar a mão. E que lha dessem - essa criança não deixaria que lha agarrassem. Porque lá no fundo, dentro dessa criança que há dentro de mim, essa criança sabe que para tudo há um momento.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

«Tomorrow Is Another Day, But Tonight Is Still Yesterday»*



*Adulteração autorizada da frase dita por amigo que prefere quedar-se pelo anonimato. AVISO: Este é apenas mais um post que vai por aí, pelos montes e vales, mares e montanhas, sem destino, perdido - perdido, não por não saber onde está, mas por não saber para onde quer ir. E como dizia o Gato a Alice...

Podia passar a eternidade a ouvir e-ternamente Paul McCartney - Ou Leonard Cohen - The Beatles - Pink Floyd - Queen - Jeff Buckley - Led Zepplin - podia ficar e-ternamente a ouvir esta música. Ou apenas o gemido de uma guitarra - o berro de um tambor - a marcha ritmada de uma bateria - o explodir - o explodir...

------E quando tudo vai rebentar.

domingo, 18 de janeiro de 2015

Poeta Castrado, Não! - Poema de José Carlos Ary dos Santos

Poeta Castrado Não José Carlos Ary dos Santos
José Carlos Ary dos Santos
Lisboa, 7 de Dezembro de 1937 - Lisboa, 18 de Janeiro de 1984

Poeta Castrado, Não!

Serei tudo o que disserem
por inveja ou negação:
cabeçudo dromedário
fogueira de exibição
teorema corolário
poema de mão em mão
lãzudo publicitário
malabarista cabrão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado não!
Os que entendem como eu
as linhas com que me escrevo
reconhecem o que é meu
em tudo quanto lhes devo:
ternura como já disse
sempre que faço um poema;
saudade que se partisse
me alagaria de pena;
e também uma alegria
uma coragem serena
em renegada poesia
quando ela nos envenena.
Os que entendem como eu
a força que tem um verso
reconhecem o que é seu
quando lhes mostro o reverso:
De fome já não se fala
- é tão vulgar que nos cansa -
mas que dizer de uma bala
num esqueleto de criança?
Do frio não reza a história
- a morte é branda e letal -
mas que dizer da memória
de uma bomba de napalm?
E o resto que pode ser
o poema dia a dia?
- um bisturi a crescer
nas coxas de uma judia;
um filho que vai nascer
parido por asfixia?!
- Ah não me venham dizer
que é fonética a poesia !
Serei tudo o que disserem
por temor ou negação:
Demagogo mau profeta
falso médico ladrão
prostituta proxeneta
espoleta televisão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado, não!


José Carlos Ary dos Santos, in Resumo. Num tempo em que há tantos castrados por aí, muitos que são castrados, mas mais ainda os que se castram a si mesmos, num tempo de mesquinhez, inveja, pequenez, num tempo de cobardes, aqui recordo um conhecidíssimo poema de José Carlos Ary dos Santos, no dia em que passam 31 anos desde a sua partida para junto dos astros.

sábado, 17 de janeiro de 2015

Harmonia, Poema de Miguel Torga - o Poeta que se juntou ao Pó das Estrelas há 20 anos.

Miguel Torga Poeta
Miguel Torga
Vila Real, 12 de Agosto de 1907 - Coimbra, 17 de Janeiro de 1995


Harmonia

Feliz canto das aves,
Sem possível
Compreensão;
Feliz rumo dos astros,
Sem possível
Desvio;
Feliz fúria do vento
Sem possível
Arrependimento.

E feliz o poeta
Que ninguém lê.
Que sòzinho contempla
O nascimento e a morte
Dos seus versos.
Pai acabado que no próprio corpo
Gera os filhos
E lhes dá ternura
Do berço à sepultura.

Miguel Torga, in. Orfeu Rebelde (edição de autor, 3.ª edição, Coimbra)

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

O Novo Número de Charlie Hebdo* [sai dia 14/01/2015]

Charlie Hebdo Nouveau Numéro Novo Número New Number 14/01
[CHARLIE HEBDO VERSÃO PDF]
Via Entre as Brumas da Memória


*Não consegui confirmar a veracidade desta capa; no site e na página oficial no facebook ainda não existe qualquer informação; somente que sai a 14/01/2015 «Le Journal des Survivants».

Actualização: Notícia Estadão. Notícia Le Monde.

Actualização (13/01/2015): Sai amanhã, 14 de Janeiro de 2015, o primeiro número de CHARLIE HEBDO após o cobarde ataque terrorista que nos privou daqueles que estão na linha da frente da defesa da nossa liberdade - contra o obscurantismo, contra o (falso) moralismo, contra a (baixa) política, contra o paternalismo (vazio), contra a formatação do pensamento, dos comportamentos, das atitudes. Tenho um exemplar reservado - porque, por muitíssimos motivos, é um número histórico - por razões tristes e infelizes - mas um número histórico. Acima de tudo uma homenagem àqueles que não se privam de ser - todos os dias, a todas a horas - quem são, recusando-se a viver de joelhos, a viver como ratos, a serem lambe-botas e chupa-piças (metafóricos, bien entendu). Contra a hipocrisia e a cobardia - pela liberdade e pelo direito a Ser - o novo número de CHARLIE HEBDO é um número histórico.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Homenagem às vítimas do ataque terrorista ao Charlie Hebdo, pelo cartoonista do The Independent, Dave Brown II

Charlie Hebdo, Cartoon, Dave Brown
Cartoon de Dave Brown


Somos (quase) todos Cartoonistas. Somos (quase) todos Jornalistas. Somos (quase) todos Charlie Hebdo. Não há liberdade sem liberdade de imprensa.


Quase, que eu não me misturo com essa gentalha da Extrema-Direita, Le Pen's e afins... Nem com esses chantagistas apregoadores de morais, sem moral nenhuma, que aproveitam ataques infames para lançar o medo, na Grécia, por exemplo, por exemplo...

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

ContraDizer_04: "Proposta modesta para evitar que os filhos dos pobres da Irlanda sejam um fardo para os seus pais tornando-se úteis à comunidade."



Foi-me garantido em Londres por um americano dos meus conhecimentos, homem muito instruído, que uma criança saudável e bem alimentada constitui, com um ano de idade, alimento delicioso, nutritivo e saudável, quer estufada, quer assada, quer cozida no forno, quer escalfada; e não tenho dúvidas de que também será possível cozinhá-la em fricassé ou em guisado.

Jonathan Swift, em «Proposta modesta para evitar que os filhos dos pobres da Irlanda sejam um fardo para os seus pais tornando-se úteis à comunidade.» Ensaio satírico que pode ser encontrado na obra Singela Proposta e Outros Textos Satíricos, publicada pela Antígona.

O Teatro do CalaFrio organiza mais uma sessão de ContraDizer, a quarta (evento facebook), desta vez com a presença deste vosso escriba, declamando, ou dizendo, ou não sei bem, poemas e outros textos da sua autoria, acompanhado por Gonçalo Maia Caetano, que tocará guitarra com a mestria de sempre. Para quem quiser (e puder) aparecer, saibam que terá lugar na antiga Escola Primária da Sequeira (Guarda), com o apoio da Associação CSR Sequeira, no próximo dia 30 de Janeiro, pelas 21h30 (Sexta-Feira). Programa completo:

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Resoluções & Desejos para 2015: «A única conclusão é morrer.»


Assim acabou a primeira noite do novíssimo ano - ou começou o primeiro dia - afinal nada é tão simples quanto parece - um facto em si mesmo é nada...

Não comi passas, não pensei em nenhum desejo, não tomei nenhuma resolução. Podia resolver deixar de fumar, por exemplo. Pensei nisso mais tarde, durante a noite. Podia - mas é pelas pequenas coisas que falhamos...

Entretenho-me, nestas noites, a observar: é tudo tão plástico, tudo tão falso, tudo tão premeditado, tudo tão pré-determinado. Tudo tão vulgar. Tudo tão ordinário. Tudo preso a ideias, tudo refém de conceitos. Tudo a procurar encaixar-se num modelo. Tudo tão limitado. Tudo tão convencional. Tudo tão ridículo.

Nem vislumbre de autenticidade, de espontaneidade. Reconheceriam o extraordinário, o magnífico, o belo, se o tivessem à frente dos olhos? Limitados pelas amarras da formatação total a que se encontram reduzidos, ignoram. E assim vão os homens, felizes simplesmente por viver, escravos e predadores de si mesmos.

Uma amálgama de seres humanos - e pelo meio, perdidas, irremediavelmente perdidas, duas ou três pessoas. Irremediavelmente condenadas, porque a sociedade não é mais que uma máquina da colónia penal kafkiana.

Pelo que me resta de saúde mental - pelo que me resta de esperança - pelo que me resta de força - permito-me deixar a óbvia conclusão por dizer... «A única conclusão é morrer.»