segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Todos os sonhos são, serão/ Sonhos que tivemos. Sonhados/ Outra vez, sempre a mesma vez./ Uma corda mágica que vibra/ Dentro do ser, que lhe dá vida/ Até que, quebrada, se desfaz.

Fazenda, Quinta, Farm


Queria ter uma quinta isolada com um riacho ao fundo... onde pudesse ter os meus livros, uma máquina de escrever, um cão e um sótão... um perdigueiro... e a sombra de um salgueiro... um pôr-do-sol arroxeado... uma brisa estival... um pintassilgo e um pardal... e um horizonte prateado... gostava de não ter nascido, embora a ideia de morrer me assuste... gostava de ter resposta para duas ou três perguntas simples... aqueles porquês amargos que vamos coleccionando... ou talvez seja eu que não tenha coragem para fazer as perguntas certas... não acredito na hipótese de voltar a amar... "Todos os amores são a sombra daquele que nos alvoroça como um fantasma"... se alguém pensar que consegue fazer-me acreditar no contrário!... tenho duas pulseiras, uma de prata, outra com pedras (violetas, pretas e verdes)... disseram-me que eram um pouco amaricadas... "Ainda bem! É sinal que gostas, mas és cobarde demais para admitir!"... gosto de vestir roupas com cores fortes (vermelho, verde, laranja, violeta)... há mais de dois anos que não uso os meus quatro brincos... gostava de fazer um piercing e uma tatuagem... com a imagem de um anjo a masturbar-se, enquanto segura um crucifixo, sentado na Bíblia... tento sempre cumprir as promessas que faço, desde as mais simples às mais difíceis... tento... a coisa que mais odeio na vida é o facto de não poder ter por perto todas as pessoas de quem gosto... sou incapaz de dizer a alguém que tenho saudades... detesto pedir desculpas... e também não gosto que me peçam desculpas... não sei qual das duas situações é mais confrangedora para mim... sou disléxico, as pessoas nem imaginam o que me custa escrever certas palavras!... não sei o que são asneiras, para mim são interjeições!... o que mais me cativa nas pessoas é o sorriso e o modo de olhar... gosto mais das pessoas bonitas e tristes que das pessoas feias e alegres... tenho pena que a maioria das pessoas não entenda o non-sense... costumo pensar "coitada, nunca leu a Alice nem os livros do Boris Vian nem nada que valha a pena!"... é impossível (já desisti) ironizar com os portugueses, levam tudo à letra... ando sempre com um poema na cabeça... já soube o poema "Guardador de Rebanhos" de cor... ainda sei a primeira estrofe... gostava de ler todos os livros de Luiz Pacheco, mas tenho receio que depois desate a plagiá-los... por isso ainda não comprei nenhum... o whisky é a única bebida capaz de anestesiar as minhas dores do espírito... ou de afogar as mágoas, como diz um amigo de infância... gosto de cozinhar, mas detesto lavar e arrumar a louça... prefiro a comida um pouco insonsa e pouco doce... junto noz moscada a todos os temperos... às vezes fico angustiado quando estou a ler, porque penso que nunca conseguirei ler todos os livros que queria... detesto a barba... em vez de me cair o cabelo, devia cair-me a barba... tenho insónias... por causa disso, ando quase sempre mal disposto... ou talvez seja o contrário... eu sei que é um sintoma de um outro problema, mas não gosto de pensar nisso... porque não há nada a fazer, e quando não se pode fazer nada, tem que se aguentar... sou feio e infeliz... um mal nunca vem só!... e não me venham com falinhas mansas... que a beleza está por dentro!... O tanas é que está!... por dentro estão as entranhas... sou alérgico aos pólens de algumas árvores e à alegria... a alegria causa-me depressão... os pólens provocam-me comichão... e o acordo ortográfico irritação!... gosto muito de enchidos... e de reticências... dizem que são indefinição, indecisão... são uma ideia que fica no ar... a vaguear... algumas pessoas dizem-me que poderia ter ido muito longe... longe é muito distante!... sim!, se tivesse um alpendre, largo sobre o horizonte! 

*Versos deste poema.

Texto corrigido e alterado. Original aqui. Republicado no blog, porque me apetece - porque provavelmente, os leitores de hoje já não são os leitores de ontem.

4 comentários :

  1. Há montes de gente a querer uma data de coisas. As suas não são nem mais nem menos. São. Podem ou não realizar-se, depende de si e não só. Que essa coisa da vontade poder é muita vez uma treta. Mas pronto, casos há em que ajuda.

    O resto parece-me um solilóquio. Não sei se verdadeiro que cada um se escreve como quer e lhe dá na bolha - a net tem essa qualidade.

    Acho que em vez da máquina de escrever pode usar um portátil ou assim. É mais prático e além disso as máquinas de escrever, hoje, são difíceis de encontrar.

    Sugestão: compra o portátil, põe-o onde possa ou deseje, escreve e imagina a quinta e o mais do seu sonho envolvente. Talvez seja melhor que a quinta a sério: há os bichos que se arrastam, os mosquitos, as vespas, as abelhas, os maus cheiros, o pó (nada bom para alergias) e etc. Imaginando a paisagem, prescinde de tudo isso que a realidade traz agarrado a si e não é romântico nem agradável.

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    1. (Ai!, não me fales na terceira pessoa - isso não existe em Português - não trato ninguém na terceira pessoa - se fizeres questão, posso fazê-lo, não quero desagradar ninguém -, e até sinto uns arrepios quando me tratam na terceira pessoa; isso é coisa de beija-mão, e beija-mão é coisa de D. João VI)

      Li por aí uns filósofos que dizem que tudo é um solilóquio: tudo o que existe (para nós) está em nós (dentro de nós).

      Os portáteis são uma valente chatice; já tenho um, aquele onde agora escrevo este comentário...

      Enfim, é tudo ficção: ficção mesmo quando é real:

      «O poeta é um fingidor
      Finge tão completamente
      Que chega a fingir que é dor
      A dor que deveras sente.»

      Obrigado pelo(s) comentário(s); ficam menos sós, os meus textos, talvez disparatados, talvez desesperados, talvez outra coisa qualquer...

      :)

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  2. Fazia ideia de ser antiga, -velha mesmo - mas não tanto. D. João VI é um bocadinho longe. Se o tu me traz a este século...que seja. O beija mão é bonito, fora de ser sinal de sujeição. Eu beijava a mão ao meu avô, dizia "abençãmêpai", que não fazia ideia o que fosse, e ele ria enquanto me alisava o cabelo e respondia, "Deus te abençoe minha neta" e estendia-me a mão que beijara. Não me lembro de alguma vez me ter corrigido e só muito tarde lhe entendi a razão do riso.

    Certo. Ficam os textos mais acompanhados.

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    1. Dom João VI, porque quando chegou ao Brazil faziam-se filas para o beija-mão que ficaram célebres ;)

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