segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Nos 80 anos da morte do meu poeta dilecto...

Fernando Pessoa, não é necessário repeti-lo para aqueles que me acompanham nos blogs há mais tempo, é o meu escritor preferido - o dilecto dos meus poetas dilectos. Li (e tenho) toda a sua obra publicada - e tenho muita - muita - repetida - e muitas obras porque trazem mais um conto, ou mais um poema, ou mais um texto. Lembro-me do primeiro poema que li dele, assinado por Alberto Caeiro. Tinha 9 anos, e estava escrito num livro do ensino primário que uma prima, professora, me havia dado - mas que não foi aquele que eu usei. Era o poema VII de «O Guardador de Rebanhos», que começa assim: Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver do Universo… O meu Pessoa preferido é o Álvaro de Campos - bastava a sua obra para que Fernando Pessoa fosse, para mim, o melhor Poeta de sempre. Hoje, porém, nos 80 anos da morte de Fernando Pessoa, aconteceu-me ser o poema que a seguir apresento, de Alberto Caeiro, o primeiro que li. Aqui o partilho com todas as pessoas que por aqui passam. Espero que gostem.




Se eu morrer novo,
Sem poder publicar livro nenhum,
Sem ver a cara que têm os meus versos em letra impressa
Peço que, se se quiserem ralar por minha causa,
Que não se ralem.
Se assim aconteceu, assim está certo.

Mesmo que os meus versos nunca sejam impressos,
Eles lá terão a sua beleza, se forem belos.
Mas eles não podem ser belos e ficar por imprimir,
Porque as raízes podem estar debaixo da terra
Mas as flores florescem ao ar livre e à vista.
Tem que ser assim por força. Nada o pode impedir.

Se eu morrer muito novo, oiçam isto:
Nunca fui senão uma criança que brincava.
Fui gentio como o sol e a água,
De uma religião universal que só os homens não têm.
Fui feliz porque não pedi coisa nenhuma,
Nem procurei achar nada,
Nem achei que houvesse mais explicação
Que a palavra explicação não ter sentido nenhum.

Não desejei senão estar ao sol ou à chuva —
Ao sol quando havia sol
E à chuva quando estava chovendo
(E nunca a outra coisa),
Sentir calor e frio e vento,
E não ir mais longe.

Uma vez amei, julguei que me amariam,
Mas não fui amado.
Não fui amado pela única grande razão —
Porque não tinha que ser.

Consolei-me voltando ao sol e à chuva,
E sentando-me outra vez à porta de casa.
Os campos, afinal, não são tão verdes para os que são amados
Como para os que o não são.
Sentir é estar distraído.

7-11-1915

Poemas Inconjuntos. De Alberto Caeiro

A pintura que ilustra este post encontrei-a aqui.

5 comentários :

  1. Não sei qual é o meu poeta de eleição. Vou-os elegendo, um de cada vez, na medida de os ler e meditar quando me dá para isso. Poetas são quem desvenda intimidades, belamente, de forma única e universal, deixando-as íntimas na mesma. Mas Pessoa, toda a gente concorda - ou quase toda -, é genial. Não sei quem dele prefiro, mas talvez o ortónimo e Alberto Caeiro.

    Mas foi uma lembrança bonita. Ele merece.

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    1. Alberto Caeiro foi o meu primeiro Pessoa, e o meu primeiro preferido... Mas depois passou-me a adolescência, essa doença do século XX, e de quem eu gosto mesmo é do Álvaro de Campos :)

      Pessoa é mesmo um vício para mim, alturas houve em que comprava qualquer coisa que vagamente se referisse a Pessoa...

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  2. olá sou o autor deste desenho de fernando pessoa poeta que muito aprecio e vou homenageando através do desenho e pintura. veja mais trabalhos meus sobre pessoa e não só. em artmajeur.com/joaobeja,ou em jobeja.blogspot.com,
    saudaçôes cordiais de joão beja

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    Respostas
    1. Olá João Beja, já edito o post para lhe meter esses links. Cumprimentos, André.

      P.S. Belos Trabalhos ;)

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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