quinta-feira, 7 de maio de 2015

Pó, Cinza e Recordações - de J. Rentes de Carvalho - amanhã, 08 de Maio de 2015, nas livrarias.

Pó Cinza e Recordações, J. Rentes de Carvalho
Pó, Cinza e Recordações
J. Rentes de Carvalho
«O Kalifa serve um «bacalhau à lagareiro» de qualidade superior, feitura idem, pelo que para lá me mando, a antecipar os sabores do almoço.
Estaciono defronte dos Correios.
Assombrado, o casal estacou no passeio. A mulher fica. O homem, um sessentão gorducho apoiado a um cajado, avança para mim:
- Olha que esta! Ai que caralho! Quem havia de dizer!
Indiferente ao trânsito, pára a meio da rua, abre os braços, agita o pau num modo de esgrima amigável.
- Não me está a conhecer, pois não? Ai que caralho. A minha mulher… Não se lembra de mim?
- Francamente, não recordo.
- Caralho! Sou o Adérito! O Adérito das cerejas, caralho!
- Deve estar enganado.
- Não estou, caralho! Nós somos primos!
- Desculpe, mas…
- Sou o Adérito da tia Conceição, caralho! O Adérito… - continua a sorrir, mas atira uma paulada raivosa ao passeio.
- O Adérito, caralho! O Adérito de Vilarinho dos Galegos! O das cerejas! O primo!
- Olhe que não. Eu sou doutros lados. Não tenho família em Vilarinho, nunca lá fui.
- Não me diga, caralho! Então enganei-me?
- Acho que sim.
- Ai que caralho! Podia jurar, caralho!...
Encara-me descrente. No outro lado da rua, encostada à parede dos Correios, a mulher acena um adeusinho.»

O Adérito das Cerejas, J. Rentes de Carvalho, em Pó, Cinza e Recordações, Diário (15 de Maio de 1999 - 15 de Maio de 2000) - via Quetzal.

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