sábado, 23 de maio de 2015

O Dia de Não-Aniversário

Fiz anos, algo que acontece com demasiada frequência e que, embora pareça demasiado fácil, é cada vez mais difícil. Obrigado a todos que, de uma forma ou outra, se lembraram de mim. Deixo-vos com um excerto de um dos meus livros dilectos.

Alice and Humpty Dumpty


- Portanto, aqui vai uma pergunta para ti. Que idade disseste que tinhas?
Alice fez umas breves contas de cabeça e respondeu:
- Sete anos e seis meses.
- Está errado! - exclamou Humpty Dumpty com um ar de triunfo. - Tu nunca disseste isso.
- Pensei que querias perguntar: «Que idade tens?» - explicou Alice.
- Se eu quisesse perguntar isso, tê-lo-ia dito - objectou Humpty Dumpty.
Alice não queria começar outra discussão, por isso não disse nada.
- Sete anos e seis meses! - repetiu Humpty Dumpty, pensativo. - Que idade incómoda! Se tivesses perguntado a minha opinião, eu ter-te-ia dito: «Pára aos sete anos»... Mas agora é tarde de mais.
- Eu nunca peço conselho para crescer - respondeu Alice, indignada.
- Por uma questão de orgulho? - perguntou o outro.
Alice ficou ainda mais indignada com esta sugestão e respondeu:
- O que eu quero dizer é que uma pessoa não pode impedir-se de crescer.
- Uma talvez não possa - respondeu Humpty Dumpty -, mas duas podem. Com a ajuda adequada é possível parar de crescer aos sete anos.
- Que lindo cinto que traz! - disse Alice de repente. (Já tinham falado o suficiente sobre o assunto da idade, pensou, e se a regra era escolherem assuntos à vez, agora era a vez dela.) - Ou antes - corrigiu, depois de pensar melhor -, uma linda gravata, queria eu dizer... Não, um cinto... Desculpe! - concluiu, consternada, pois Humpty Dumpty parecia verdadeiramente ofendido, e ela começou a desejar não ter escolhido o assunto.
«Se ao menos eu soubesse onde fica o pescoço e onde fica a cintura!», pensou Alice.
Era visível que Humpty Dumpty estava muito zangado, embora não dissesse nada durante um minuto ou dois. Quando voltou a falar, foi num tom de profunda ofensa.
- É a maior das insolências uma pessoa não saber distinguir uma gravata de um cinto! - disse por fim.
- Eu sei que mostrei ser muito ignorante - confessou Alice, com um ar tão humilde que Humpty Dumpty abrandou o tom.
- É uma gravata, menina, e muito bonita que ela é, como tu dizes. Foi um presente do Rei e da Rainha Branca. Nem mais!
- A sério? - replicou Alice, muito satisfeita por achar que descobrira afinal um bom assunto.
- Ofereceram-ma - continuou Humpty Dumpty com ar pensativo, cruzando as pernas e segurando um dos joelhos com as mãos -, ofereceram-ma... como presente por não fazer anos.
- Perdão? - perguntou Alice, confusa.
- Não estou ofendido - respondeu Humpty Dumpty.
- O que eu queria saber é o que é um presente por não fazer anos.
- É um presente oferecido num dia em que não fazemos anos, é claro.
Alice ficou uns instantes a pensar. Por fim, disse:
- Eu prefiro os presentes no dia em que faço anos.
- Não sabes o que estás a dizer! - exclamou Humpty Dumpty. - Quantos dias tem um ano?
- Trezentos e sessenta e cinco - respondeu Alice.
- E quantas vezes fazes anos?
- Uma.
- E se tirares um a trezentos e sessenta e cinco, quantos ficam?
- Trezentos e sessenta e quatro, é claro.
Humpty Dumpty parecia desconfiado.
- Prefiro fazer a conta no papel - disse ele.
Alice não pôde deixar se sorrir ao tirar o seu bloco de notas e fazer a conta para ele:

365
   -1
364

Humpty Dumpty pegou no bloco e observou-o atentamente.
- Parece que está bem... - começou a dizer.
- Mas está a segurar nele ao contrário! - disse Alice.
- É verdade! - concordou Humpty Dumpty alegremente, quando Alice endireitou o bloco. - Bem me parecia que havia qualquer coisa estranha. Como eu ia dizendo, parece que está bem... Embora eu não tenha agora tempo de examinar a conta com atenção... E isto mostra que há trezentos e sessenta e quatro dias em que podes receber presentes quando não fazes anos...
- Sem dúvida - respondeu Alice.
- E só um em que podes receber presentes por fazeres anos. Que glória para ti!
- Não sei o que quer dizer com «glória» - disse Alice.
Humpty Dumpty sorriu com um ar de desprezo.
- É claro que não sabes... senão quando eu te disser. O que quero dizer é: «Ora aí está um belo argumento para te derrotar!»
- Mas «glória» não quer dizer «um belo argumento para te derrotar» - objectou Alice.
- Quando eu utilizo uma palavra - disse Humpty Dumpty com um ar trocista - ela significa exactamente aquilo que eu quero... Nem mais nem menos.
- A questão é saber se pode fazer com que as palavras signifiquem coisas tão diferentes - disse Alice.
- A questão é saber quem é que manda... Mais nada - corrigiu Humpty Dumpty.

Lewis Carroll, em Alice do Outro Lado do Espelho (tradução de Maria Filomena Duarte)

2 comentários :

  1. Parabéns!
    Já foi um dos meus livros preferidos, mas li-o há tanto tempo que esqueci grande parte - tenho de o voltar a ler.
    um beijinho
    Gábi

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