sexta-feira, 15 de maio de 2015

Citação: Sempre a Descer - de Henrique Manuel Bento Fialho

Desemprego a Descer
Deve ser disto que falam os governos, quando dizem que
o Desemprego está a descer
(...) Esperavam o quê de uma sociedade onde as famílias são quase forçadas a desestruturarem-se, com pais e mães que praticamente não falam com os filhos, distribuídos de segunda a domingo por empregos precários, cumprindo horários rotativos com turnos que parecem saídos do séc. XIX? Esperavam o quê de uma sociedade onde os pais foram forçados a legar o seu papel de educadores numa escola esmifrada, reduzida aos mínimos, pressionada por objectivos puramente mercantilistas que olha para os alunos como numa tipografia se olha para a pasta de papel? Esperavam o quê? Esperavam talvez que de uma sociedade onde os professores foram massacrados, perdendo todo o seu estatuto social, reduzidos profissionalmente a uma cambada de imbecis que devem ser sujeitos a provas de aferição, anos a fio de tenda às costas, esperavam talvez que miúdos cuja educação se exerce sob a influência de vídeos virais fossem solidários, tolerantes, cooperativos, fraternos. Cambada de cretinos. Andam há anos a fazer como os macacos, tapam os olhos, os ouvidos, não querem ver, nem ouvir, não falam, não querem saber, mas esperam que o mundo não seja o esterco que cresce a esmo em torno desta indiferença, desta indolência, desta alienação. Pais que não falam com os filhos, pais que se fazem substituir pela oferta de gadgets, pais que não têm sequer tempo para desfrutar com os filhos (eu tenho um fim-de-semana por mês para estar com as minhas e, confesso, quando ele chega tantas e tantas vezes só me apetece estar comigo próprio!), professores feridos na sua dignidade, psicólogos no desemprego a concorrerem para caixas de supermercado e livreiros de shopping, um sistema nacional de ensino trucidado pela raiz, meticulosamente destruído nas últimas décadas em função de um mercado de trabalho onde se pretende mão de obra barata, matéria bruta para servir grandes grupos empresariais que não podem ser competitivos, eh lá, sem exercerem bullying diário sobre os seus trabalhadores, pagando pelos mínimos, exigindo os máximos, impondo objectivos com os quais ameaçam, pressionam, levam à loucura, à depressão, a estados extremos de ansiedade gente que espera levar para casa ao fim do mês o suficiente para pagar gás, água, luz, gasolina, latas de atum e o MEO que cale os filhos. (...) A vossa indignação é torpe, é esterco, devia envergonhar-vos a todos. (...)

Leiam o texto completo, de Henrique Manuel Bento Fialho, no blog antologia do esquecimento.

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