domingo, 24 de maio de 2015

Citação: Desemprego e Canas de Pesca - de Gonçalo Mira

Desemprego Jovem na Europa
O desemprego não é nada de novo, nem para mim nem para muitas (demasiadas) pessoas, mas continua a doer que se farta. Não há repetição que torne a situação suportável, não há forma de isto calejar e ser ignorado. Ainda bem que assim é, por um lado, porque a revolta fermentada é mais saudável do que o abandono de tudo e a aceitação de que é assim mesmo. Sou daqueles idiotas que faz questão de não partir. É aqui que quero estar, é aqui que quero construir qualquer coisa, mesmo quando os governantes mandam embora a minha geração e depois a chamam de volta, como destruíram a pesca e depois a quiseram impulsionar.

Não é fácil explicar em palavras o sofrimento silencioso que esta situação provoca. Não será igual para toda a gente, mas custa muito a muitos. À beira dos trinta, a minha vida tem sido recheada de empregos precários e muitos regressos a casa dos meus pais. É aqui que estou, de novo, sob uma pressão imensa que não ajuda nada, vendo-me confinado a uma cidade de que não gosto, onde a única coisa que me salva são os meus poucos amigos que ainda cá estão. Mas tenho muitos outros em Lisboa, onde vivi e trabalhei em vários períodos, Lisboa que fica a uma hora de viagem, e dói muito não ter dinheiro sequer para lá ir de vez em quando beber uns copos. Como dói não ter dinheiro para ir ao cinema, para ir ao jantar de aniversário de uma amiga, para beber um café.

(...)

Há uns meses, comecei a escrever um romance. Durante algumas semanas consegui dedicar-me a ele quase em regime de full-time. Já me imaginava a vencer um prémio literário e a ouvir pessoas a falarem do meu desemprego como uma oportunidade de vida e eu mandá-las para o caralho. O conto de fadas só muito raramente acaba assim, meus caros. O que aconteceu foi que o dinheiro com que vivia, do meu último trabalho, chegou ao fim e a depressão instalou-se. Quando isto chega a este ponto, o saldo da minha força de vontade espelha o da minha conta bancária. Não há motivação que resista, não há capacidade mental para juntar palavras em frases e fazer qualquer coisa com qualidade. Não tenho pejo em admitir a minha fraqueza: entro num ciclo vicioso em que não tenho vontade de fazer nada, logo não consigo mudar a minha situação, ou sequer tentar, logo a situação não muda, logo não tenho vontade de fazer nada, logo não consigo mudar a minha situação, logo ad infinitum.

Desemprego e Canas de Pesca, de Gonçalo Mira. Texto completo no blog do autor.

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