quarta-feira, 13 de maio de 2015

A Entrevista. Tal como Prometido. Eu a Fingir que sou Escritor - e as Pessoas a Fingirem que Acreditam!

André Benjamim, Entrevista, Os Cadernos Secretos de Sébastian
Com um livro já publicado, Os Cadernos Secretos de Sébastian, André Benjamim é um jovem escritor natural do Sorval. Com a alma repartida entre a prosa e a poesia, André não é de muitas conversas "gosto mais de escrever", justifica. A sua escrita é polémica, acutilante e, por vezes, provocadora. O "Pinhel Falcão" foi ao Sorval para conhecer este Pinhelense.

Pergunta-se a idade a um escritor? Não tenho idade. Como em «Alice», não me recordo agora se «no País das Maravilhas» se «do Outro Lado do Espelho», deixei de fazer anos. Estou todos os dias receptivo a presentes... a prendas, não! Só tenho dias de Não-Aniversário...

Pinhel Falcão (PF) – Comecemos pelo pseudónimo André Benjamim. Queres explicar como aparece este nome na tua vida?

André Benjamim (AB) Antes de mais há que dizer que muitas pessoas que se relacionam comigo nem sequer sabem que não me chamo André Benjamim, e mesmo aquelas que sabem, me chamam André. ou Benjamim. Até a minha mãe por vezes se esquece que não me chamo «André». E que quem me chama pelo meu nome civil corre o sério risco de ser ignorado, pois a maioria das vezes não me chama à atenção, sinto-o como estranho a mim mesmo. Do nome André Benjamim há apenas a dizer que teve origem em dois autores de que gosto bastante: a poetisa Sophia de Mello Breyner Andresen, e o filósofo Walter Benjamin.


PF – Tens um livro já publicado, Os Cadernos Secretos de Sébastian. Queres falar um pouco desta obra, das circunstâncias e dos objectivos?

AB É um romance feito de duas histórias propositadamente fragmentárias, pois são como dois espelhos partidos que se reflectem um ao outro. Para compreender totalmente a história, há que imaginar a imagem que resulta da junção dos dois reflexos. Fala sobre o Ser e a Identidade, uma mistura de Existencialismo e Modernismo, de Jean-Paul Sartre (A Náusea) e Luigi Pirandello (Um, Ninguém e Cem Mil). Objectivos? Questionar! Questionar sempre.

PF – Sei que tens um novo livro a marinar. Queres falar um pouco sobre ele?

AB – Talvez um dia acabe «Sonhos Secundários: prisioneiros num desenho de Escher». Tenho umas quatrocentas páginas escritas; ou pelo menos seria esse o valor que obteria de as mandasse imprimir em forma de livro nalguma tipografia, o que daria mais ou menos o dobro daquele que publiquei; todavia, está muito, muito verde. Não passa, ainda, de uma introdução a uma introdução. Também já pensei em organizar de alguma maneira os meus poemas, e alguns textos breves; porém de concreto só tenho um título provisório: «Poesia: O Agasalho dos Amantes». Não sei se algum dia existirão.

PF – Quais são autores que influenciam a tua escrita? 

AB – Laurence Sterne (A Vida e Opiniões de Tristram Shandy). Gostava de o ter lido uns quinze ou vinte anos antes. Miguel de Cervantes, Álvaro de Campos, Lewis Carroll, Sophia de Mello Breyner Andresen, Mário de Sá-Carneiro, Mário Cesariny de Vasconcelos, José Saramago, João Ubaldo Ribeiro, Michael Cunningham, Luigi Pirandello, Jean-Paul Sartre... e tantos, tantos outros, que é uma injustiça referir apenas estes...

PF – Quando escreves, quais são os assuntos que gostas de abordar. É um desabafo social; é o amor, a morte ou é, algo imprevisível quando a página está em branco?

AB – Na vida e na Literatura só há três assuntos: amor, sexo, e morte. Todos os outros temas conduzem a estes, ou andam em volta deles. São os temas essenciais. São as cores primárias da Literatura e da Vida. Mais especificamente, costumo falar sobre o sonho, o amor, a amizade, a condição humana. Quando escrevo algum poema, habitualmente já o trago na cabeça há semanas, às vezes meses, limito-me depois a resgatá-lo para as páginas de um caderno. Quando escrevo prosa, tenho em mente uma linha narrativa geral: a partir daí tudo pode acontecer, e o produto final pode sair algo completamente divergente da ideia inicial. Não há limites.

PF – A pequena aldeia do Sorval, onde vives, é uma fonte de inspiração? Em que ambiente preferes escrever? Dia ou noite?

AB – Talvez seja uma fonte de inspiração para algum milionário ou para algum lírico, de outra forma não imagino como o possa ser. Não é pessimismo nem derrotismo, são apenas dois dedos de testa... A mesa de um café, não muito barulhento, nem muito silencioso, é o melhor lugar do mundo para escrever, desde que haja dinheiro no bolso para café e tabaco, e eventualmente um copo de whiskey, quando o sol se põe, ao final da tarde, pela noite e madrugada dentro... Os actuais higienistas, moralistas, e paternalistas da moda devem deitar fumo pelas orelhas quando ouvem uma coisa destas!

PF – Escrever é para ti uma necessidade, um prazer ou um modo de subsistência? Mais simples, por que razão escreves?

AB – Não é nada disso. Passo muito bem sem escrever, portanto não creio que seja uma necessidade. Prazer? Há tanta coisa no mundo e na vida que dão prazer! Quando ouço falar no prazer da escrita apenas me interrogo que outros prazeres estará a escrita a substituir! Quanto a modo de subsistência? Nunca fiz contas, mas se as fizer, creio que a escrita só me tem dado prejuízo. Mas é assim com 99% dos escritores (e com outros artistas). E do restante 1%, a maioria nem sequer é escritor: são "botadores" de verdades absolutas para o papel. Não há verdades absolutas! Nem sequer verdades; há apenas o caminho... Não sei porque razão escrevo... Talvez porque de quando em quando tenha alguma coisa para dizer e não tenha quem ouça. Talvez escrevendo algum dia alguém escute.

PF – Poesia ou Prosa?

AB – Poesia e Prosa (risos).

PF – Que qualidade consideras fundamental num escritor?

AB – Um escritor, e qualquer outro artista (um músico, um pintor, um escultor, por exemplo), deve questionar e questionar-se, sempre. Questionar metodicamente como o cientista, e com uma imaginação sem limites como as crianças: «Porquê? Porquê? Porquê?». Questionar o mundo e a vida, questionar-se a si mesmo e aos outros, questionar a verdade e a mentira, as leis e os costumes... Caso contrário é apenas uma fábrica de produção de banalidades, ou um vendedor de comida rápida; dando respostas ao invés de questionar, esses vendedores de sucesso fazem o seu público sentir-se sábio e inteligente; enchem-lhes a barriguinha de ignorância. Um escritor deve obrigar o leitor a reflectir (e eventualmente a mudar). Desconfiem sempre de quem vos disser o que querem ouvir.

PF – André Benjamim e Gonçalo Maia Caetano. A escrita e a música. Queres falar um pouco deste projecto?

AB – Talvez não existam outras duas artes que se assemelhem e dialoguem tanto quanto a música e a poesia. Suponho que a humanidade, quando as criou, criou-as ao mesmo tempo... A música é poesia despida de palavras; e a poesia sem as palavras é a emoção, o ritmo, o sentimento: a música. O Gonçalo é um artista sublime, uma pessoa extraordinária, e um amigo fabuloso. Um dia destes encontrámo-nos como quem diz «olha, tu!», e (re)conhecemo-nos, inaugurando de novo o verso de O'Neill. Tinha, por essa altura, recebido um convite para ir dizer poemas da minha autoria [Teatro do Calafrio], e pensei logo em convidar o Gonçalo para me acompanhar com composições musicais, o que ele aceitou prontamente. E foi assim. Tenho a convicção que poderíamos realizar projectos belos e interessantes; contudo, não sei se as condições e contingências (falo por mim) o permitirão. Além de mais, o Gonçalo tem os seus projectos artísticos, e está num processo de aprendizagem; tem o seu caminho a percorrer, em que procurará a sua própria voz, e terá, assim o espero e acredito, um futuro auspicioso, em que a sua estrela brilhará. Enfim, trabalhar com o Gonçalo é fantástico. Só pode ser fantástico.

PF – Declamar poesia implica público. Algo que está ausente durante o processo criativo. O que te atrai no palco?

AB – As luzes e o microfone, algo que quem me convida para declamar poesia insiste em retirar. Isto quando há palco. Na verdade não gosto nada de declamar poesia - e declamando prefiro declamar poesia de outros autores. Se for algum poema do Álvaro de Campos a mandar tudo para a merda, melhor. O «palco» permite-nos ver até que ponto as nossas palavras conseguem ou não transmitir ao público as ideias e as emoções que estiveram na sua origem. Ou pelo menos iludirmo-nos disso.

PF – A tua obra caminha lado a lado com a tua vida ou, é algo que se pode dissociar?

AB Suponho que caminhem lado a lado, uma vez que estão ambas paradas. No entanto podem (e devem) sempre dissociar-se. Tudo aquilo que um escritor escreve é sempre ficção; não é verdade nem mentira, não é real nem imaginado: é ficção. Eu sei que para a maioria das pessoas isto é difícil de entender, principalmente quando a vida e obra de um autor se tocam, se cruzam. Citando Fernando Pessoa «Não sei com que sinceridade falo quando falo com sinceridade». Mesmo quando falo (escrevo) de mim, é de outro que falo.

PF – Hoje o mundo está mais pequeno. A internet aproximou as pessoas, principalmente, as redes sociais. Costumas utilizar este meio para divulgar o teu trabalho?

AB – É verdade, costumo fazer muito SPAM. Publico os meus poemas no meu blog e no facebook. Não sei se a internet aproximou as pessoas, ou apenas lhes deu uma ilusão de proximidade, uma vez que as pessoas parecem estar cada vez mais distantes umas das outras; ou talvez a internet não tenha nada que ver com isso, e seja apenas do ar, tóxico e irrespirável, do tempo que corre...

PF – Como lidas com a crítica má?

AB – Como ninguém me conhece, tenho o privilégio de não ter críticas más. Nem boas. Os amigos não contam, os conhecidos dizem sempre que gostam muito e pronto, e eu penso sempre «não entendeu patavina», e não me interessa o que dizem depois, quando dizem. Não sou grande adepto da crítica. Pior que os críticos só os académicos: embrulham-se em cada bola de lã, tão cheia de nada e coisa nenhuma... Obrigava-os a todos a ler «Tom Jones» de Henry Fielding, se pudesse.

PF – Existe alguma pergunta que não fiz mas gostarias que tivesse feito?

AB – Os Portugueses entenderão, algum dia, uma ironia? Caracóis! Que o meu cachecol é o mais saboroso, mas eu quero é a abóbora do vizinho... Falta-lhes, acima de tudo, empatia. São demasiado egoístas, narcisistas, e egocêntricos. Perdem-se, portanto, com simpatias e antipatias pífias, organizados em clubismos bacocos, reduzidos a acenadores de bandeirinhas.


E pronto, conforme prometido, cá está a entrevista, para quem tenha curiosidade.


O Romance «Os Cadernos Secretos de Sébastian» encontra-se à venda, em livro, na Amazon e na CreateSpace. Em formato e-book podem encontrá-lo na SmashWords, no iTunes, na Amazon, e noutras lojas online.

2 comentários :

  1. Gostei muito, mas eu sou teu amigo (até sei o teu nome verdadeiro) e portanto sou suspeito...

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Hmmm... E estás a ser investigado? (o meu nome verdadeiro (? civil) está ali nos contactos para quem o queira ler.

      Eliminar

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...