domingo, 12 de abril de 2015

Tinha uma história para vos contar... Coisas várias, que talvez não tenham interesse para ninguém... Mas, enfim, isto é apens um blog - apenas um diário público...

Jana Schirmer
Pintura de Jana Schirmer
A todos aqueles que procuram definições, apenas lhes posso citar a velha frase do bom Oscar Wilde: «Definir é Limitar». Tenho para mim que quem depende de definições (taxionomias, nomenclaturas, classificações, etc) é limitado; e eu detesto limites, e pessoas limitadas. O belo, o extraordinário, escapa a todas as amarras com que o queiram agarrar ao normal, ao ordinário, ao vulgar...

E é tão raro, tão raro... e tão frágil.

Pedem-me poemas, mas eu só tenho rascunhos - aqueles que foram sobrevivendo. Páginas, e páginas, e páginas de nada, quase todas pintadas com riscos e mais riscos ao invés de versos. Nos últimos quatro ou cinco anos não escrevi mais que três ou quatro textos longemente parecidos com poemas: têm versos, que são frases quebradas ao ritmo de uma qualquer emoção indefinível, indizível... intraduzível.

Contudo, a história que tenho para vos contar é outra; já a contei no facebook, mas talvez quem por aqui passe, pelo blog, não seja quem passa no facebook, e no facebook é tudo tão efémero e tão seleccionado por algoritmos para quem somos apenas mercadoria, que a vou aqui recontar:


Na homilia das muitas missas diárias a que durante muitos anos fui compelido a assistir, na minha condição de prisioneiro em colégio interno católico - pena a que fui condenado por crime que não cometi - a não ser, talvez, o crime de ter nascido pobre, pouco mais que miserável, ou por ter-me morrido o pai quando ainda não completara oito anos de idade - o padre constantemente e aborrecidamente falava na metáfora do pastor e das suas ovelhas.

Recordei-me da metáfora um dia destes, quando atravessava de automóvel a rua única de uma aldeia. Lá ia o sacerdote com os seus ovinos, em procissão, ou lá como é que se chama à representação da «via sacra». E eu atrás deste rebanho, durante longos minutos. Foi então que pensei na metáfora, nos pastores, nos verdadeiros pastores, e nas suas ovelhas, nas verdadeiras ovelhas, com que por vezes me cruzo, em ruas e estradas: imediatamente se desviam, ovelhas e pastor, para um dos lados da estrada ou rua, para permitir que eu siga viagem.

Pois, com estas católicas ovelhas nada disso aconteceu; este parco rebanho, de vinte ou pouco mais alminhas, não se moveu um centímetro, fazendo mesmo questão de se espaçar o melhor que conseguia, para assim poder ocupar toda a largura da rua. Deve ser este o tão apregoado respeito católico pelo Próximo.

Tenho andado com um poema na cabeça, mas a cabeça anda a rebentar de nada, tão falida que se encontra, que não o tenho conseguido resgatar para as folhas de nenhum caderno. Se uma história, se um poema, me pudesse salvar, se houvesse alguma verdade que me pudesse redimir (redimir de quê?), talvez me esforçasse mais, talvez juntasse as poucas forças que me restam, neste tempo de falência total, e talvez o tirasse de dentro de mim. Talvez ficasse um pouco aliviado; mas neste tempo que vivemos duvido daqueles que dizem que só a poesia nos salva, duvido de mim. 

Se uma história nos pudesse salvar, escreveria uma daquelas histórias felizes, porque todas as histórias são felizes se soubermos onde as acabar; escreveria uma história que acabasse no momento em que ficássemos juntos para sempre. Porém, a vida não se compadece com as histórias que vamos reescrevendo dentro de nós, construindo a nossa maior ficção - talvez a única - para darmos sentido àquilo que não tem sentido nenhum, e segue o seu caminho, imparável. E eu vou a caminho do terceiro dia sem conseguir dormir.

6 comentários :

  1. André, este seu belo texto impressionou-me e, por isso, permiti-me transcrever um pouco lá no meu canto.

    http://umjeitomanso.blogspot.pt/2015/04/que-tua-mao-esquerda-saiba-o-que-faz.html

    E aqui quero deixar-lhe uma palavra de esperança, os meus parabéns pelo belo texto e um abraço.

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    1. Obrigado UJM. A esperança não é o meu forte, e infelizmente não enche barrigas nem traz novos dias - é apenas uma das muitas ilusões com que o ser humano disfarça o seu desespero para suportar a vida. Adiante. Abraço.

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  2. Bem sei, André, mas, não havendo, tudo ainda se tornará pior. Digo eu...

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    1. Já não há - estou em modo de navegação à deriva com a costa à vista. Mas não falemos de coisas tristes...

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  3. Sim o teu texto é muito bom, o que não me admira nada - já estou habituado.
    mas o que tenho vindo a reparar é que, e apesar dos teus males, que reconheço pesados e de difícil solução, tu estares cada vez mais a deixar de lutar e a abandonares-te ao desânimo.
    Isso é o pior que podes fazer e só te piora a situação.

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