segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Sátira «Uma modesta proposta para prevenir que, na Irlanda, as crianças dos pobres sejam um fardo para os pais ou para o país, e para as tornar benéficas para a República» de Jonathan Swift (1729) - Texto Completo


A pedido de alguns amigos e leitores do blog, o texto completo de Jonathan Swift, «Uma modesta proposta para prevenir que, na Irlanda, as crianças dos pobres sejam um fardo para os pais ou para o país, e para as tornar benéficas para a República» (1729), lido por Vasco Queiroz, na 4.ª Sessão de ContraDizer, organizada pelo Teatro do Calafrio, na última Sexta-Feira, 30 de Janeiro de 2015:


É motivo de melancolia para aqueles que passeiam por esta grande cidade, ou que viajam pelo campo, verem nas ruas, nas estradas, e às portas das barracas, uma multidão de pedintes do sexo feminino, seguidas por três, quatro, ou seis crianças, todas em farrapos, a importunarem cada passante pedindo esmola.

Estas mães, não sendo capazes de trabalhar para angariar honestamente a vida, vêem-se forçadas a gastar todo o tempo que têm a andar por ali, a mendigar o sustento para os seus filhos desprotegidos. E estes, depois de crescerem, ou se tornam ladrões por falta de trabalho, ou abandonam o seu querido país natal para se irem alistar num exército inimigo, ou se vendem como emigrantes para os Barbados.



Penso que todos os Partidos Políticos estão de acordo que este número prodigioso de crianças – nos braços, às costas, ou aos calcanhares das mães, e frequentemente dos pais – na actual e deplorável situação desta república, é uma lástima enorme e suplementar.

Portanto, quem quer que possa encontrar um método justo, barato e fácil para transformar estas crianças em membros saudáveis e úteis à comunidade, deverá não só merecer a aprovação do público, como ver ser-lhe erguida uma estátua como salvador da nação.

Porém, a minha intenção está muito longe de se confinar apenas a prover pelas crianças dos pedintes confessos. É de âmbito muito mais vasto, e deverá, no geral, incluir a totalidade do número de crianças de uma certa idade que nascem de pais, de facto, tão incapazes de as sustentar como os que pedincham a nossa caridade nas ruas.

No que me diz respeito, tendo dedicado os meus pensamentos a este importante assunto durante muitos anos, e tendo ponderadamente pesado as várias propostas de autores de outros projectos, achei-os sempre grosseiramente errados na computação.

Na verdade, uma criança acabada de sair da barriga da sua mãe pode ser sustentada pelo leite dela durante um ano solar, exigindo pouco mais de outro tipo de alimentação. No máximo, nunca acima da importância de 2 xelins que a mãe poderá decerto conseguir, além do valor dos farrapos, pela sua legal ocupação de mendicante.

É exactamente com um ano de idade que proponho prover por estas crianças, de tal modo que, em vez de serem uma carga para os pais, ou para a paróquia, ou em vez de virem a necessitar de comida e roupa pelo resto das suas vidas, pelo contrário, acabem a contribuir para a alimentação e, em parte, para o vestuário, de muitos milhares.

Existe igualmente uma outra grande vantagem na minha proposta, que irá prevenir os abortos voluntários, e aquelas horríveis práticas das mulheres que assassinam os filhos bastardos. Infelizmente, um costume demasiado frequente entre nós, que suscita lágrimas e piedade no peito humano mais selvagem. E julgo que sacrificam os pobres bebés inocentes mais para evitar a despesa do que a vergonha.

Sendo o número de almas neste reino normalmente avaliado em um milhão e meio, calculo que entre estas devem existir cerca de duzentos mil casais cujas mulheres são férteis. Deste número subtraio trinta mil casais com meios para manter os seus próprios filhos embora, dadas as actuais misérias da nação, eu julgue que não possam existir tantos. Todavia, assegurado isto, restarão cento e setenta mil parideiras. De novo subtraio cinquenta mil por conta das mulheres que abortam, ou cujos filhos morrem por acidente, ou doença, durante o primeiro ano. Restam apenas cento e vinte mil filhos de pais pobres a nascer por ano.

Portanto, a questão é saber como criar e sustentar este número, o que, como já disse, na actual situação das coisas, é totalmente impossível por qualquer dos métodos até agora propostos. Não podemos empregá-los nem em fábricas, nem na agricultura. Também não construímos casas (quero dizer, no país) nem cultivamos a terra: muito dificilmente poderão ganhar a vida a roubar antes de chegarem aos seis anos de idade – a não ser como cúmplices –, embora deva confessar que aprendem os rudimentos do ofício muito mais cedo. Porém, é um período durante o qual só podem ser considerados como aprendizes, tal como me informou um cavalheiro importante do condado de Cavam, que me garantiu nunca ter conhecido mais do que um ou dois casos abaixo da idade dos
seis anos, mesmo numa parte do reino tão famosa pela mais rápida proficiência nessa arte.

Foi-me garantido pelos nossos comerciantes que um rapaz, ou uma rapariga, antes dos doze anos de idade não é mercadoria vendável. E, mesmo quando chegam a essa idade, não poderão vir a render no mercado mais do que três libras, ou três libras e meia coroa no máximo. Uma verba que não chega para dar compensação nem aos pais, nem ao reino, dado as despesas com a alimentação e com os farrapos que custam, pelo menos, quatro vezes aquele valor.

Passarei agora, humildemente, a apresentar os meus próprios pensamentos os quais, segundo espero, não serão susceptíveis de merecer qualquer objecção.

Foi-me garantido por um muito sábio americano do meu conhecimento, em Londres, que uma criança jovem e saudável, bem alimentada, com um ano de idade, é do mais delicioso, o alimento mais nutriente e completo – seja estufada, grelhada, assada, ou cozida. E não tenho qualquer dúvida de que poderá igualmente ser servida de fricassé ou num «ragout».

Portanto ofereço humildemente à consideração pública que, das cento e vinte mil crianças já computadas, se possam reservar vinte mil para criação. Desta parte, apenas um quarto deverá ser de machos – o que já é mais do que permitimos às ovelhas, ao gado bovino e ao suíno. A minha justificação é que estas crianças raramente são fruto do casamento, uma circunstância não muito
considerada pelos nossos selvagens, pelo que um macho será suficiente para servir quatro fêmeas.

Deste modo, as restantes cem mil, com um ano de idade, poderiam ser oferecidas para serem vendidas às pessoas de qualidade e fortuna reino fora – advertindo sempre a mãe para que as deixe mamar à vontade no último mês a fim de as tornar rechonchudas e gordas, dignas de uma boa mesa.

Uma criança dará duas doses numa festa de amigos; e se for a família a jantar sozinha, os quartos da frente, ou de trás, proporcionarão um prato razoável. Se temperada com um pouco de sal ou pimenta e cozida, estará ainda bem conservada no quarto dia, especialmente no Inverno.

Fiz as contas e, em média, um recém-nascido pesará 12 libras e, se aceitavelmente tratado, durante um ano solar aumentará para 28 libras.

Concedo que esta comida venha a ser de certo modo cara e, portanto, estará muito adequada aos senhorios – e dado que estes já devoraram a maior parte dos pais, poderão ter direito de preferência sobre os filhos.

A carne dos bebés estará dentro do prazo o ano todo, mas será mais abundante um pouco antes, e depois, de Março. Pois foi-nos dito por um autor sério, um eminente médico francês que, sendo o peixe uma dieta prolífica, nos países católicos romanos há mais crianças nascidas cerca de nove meses depois da Quaresma do que em qualquer outro período. Assim sendo, calculo que um ano
depois da Quaresma os mercados estejam mais abastecidos do que o normal, pois o número de crianças neste reino é de, pelo menos, três papistas para uma protestante – o que oferecerá ainda a vantagem colateral de reduzir o número de papistas entre nós.

Também já calculei as despesas para alimentar cada filho dos pedintes (em cuja lista incluo todos os que vivem em barracas, trabalhadores rurais, e quatro-quintos dos lavradores) que será de cerca de dois xelins per annum, trapos incluídos. E creio que não incomodará nenhum cavalheiro pagar dez xelins por uma boa carcaça de criança gorda, a qual, como já disse, dará quatro pratos de carne, excelente e nutritiva, quando tiver apenas um amigo particular ou a sua própria família a jantar consigo. Assim o proprietário rural aprenderá a ser um bom senhorio, aumentando a sua popularidade entre os seus rendeiros; a mãe terá uns oito xelins de lucro líquido e estará apta a trabalhar até produzir outra criança.

Os que são mais frugais (como devo confessar que o exigem os tempos) podem esfolar a carcaça, cuja pele, artificialmente tratada, dará luvas admiráveis para as senhoras, e botas de Verão para os cavalheiros elegantes.

Quanto à nossa cidade de Dublim, podem destinar-se a este propósito as secções mais convenientes, e os talhantes podem ficar descansados que não terão falta de clientela. Embora eu antes recomende que se comprem as crianças vivas, e sejam temperadas ainda quentes da faca, como o fazemos com os porcos.

Uma pessoa de muito mérito, um verdadeiro amante deste país cujas virtudes grandemente estimo, andava ultimamente muito agradado a discursar sobre este assunto, preocupado em acrescentar um refinamento ao meu esquema.

Disse-me que, ultimamente, muitos cavalheiros do seu reino andavam preocupados com a destruição dos seus veados, pelo que concebeu que a falta de proteínas poderia vir a ser suprida pelos corpos de jovens rapazes e raparigas, não excedendo os catorze anos de idade e nunca abaixo dos doze. Havendo um grande número destes, de ambos os sexos, em todos os países, actualmente prestes a morrer de fome por falta de trabalho e serviços, poderiam ser dispensados pelos respectivos pais, se vivos, ou pelos parentes mais próximos.

Mas, com a devida deferência para com um tão excelente amigo e tão meritório patriota, não posso estar completamente de acordo com o ponto de vista dele. Porque, no que diz respeito aos machos, o americano meu conhecido assegurou-me, por experiências frequentes que, devido ao exercício continuado, a carne deles era normalmente dura e magra como a dos nossos jovens, e o seu gosto desagradável; e engordá-los não compensaria a despesa.

Penso que, no que respeita às fêmeas, com humilde submissão, seria uma perda para o público porque dentro em pouco se viriam a tornar elas próprias parideiras. Além disso, não é improvável que algumas pessoas escrupulosas pudessem estar aptas a censurar uma tal prática (embora, na verdade, muito injustamente), como tocando um pouco as raias da crueldade, o que, confesso, tem sido sempre a minha mais forte objecção contra qualquer projecto, por mais bem intencionado que seja.

Mas a fim de justificar o meu amigo, confessou ele que este expediente lhe foi posto na cabeça pelo famoso Psalmanazar, um nativo da Ilha Formosa, que daí veio para Londres há cerca de vinte anos e que, numa conversa, disse ao meu amigo que, no país dele, quando acontecia que qualquer jovem pessoa fosse condenada à morte, o carrasco vendia a carcaça a indivíduos de qualidade como mercadoria de luxo. E, no seu tempo, o corpo de uma gorda rapariga de quinze anos, que tinha sido crucificada por ter tentado envenenar o imperador, fora vendido do cadafalso, em partes, ao primeiro-ministro do estado de sua majestade imperial, e a outros grandes mandarins da corte, por quatrocentas coroas. Nem posso evidentemente negar que o reino não ficaria pior se o mesmo tratamento fosse dado a várias jovens raparigas gordas desta cidade, as quais nem uma simples moeda de prata têm por fortuna, mas que só saem à rua de liteira, e aparecem nos teatros e assembleias em finas roupas estrangeiras pelas quais nunca irão pagar.

Algumas pessoas de espírito atormentado ficam muito preocupadas com o vasto número de indivíduos pobres que são velhos, doentes, ou mutilados. E desejei dedicar os meus pensamentos ao caminho que pode ser tomado para aliviar a nação de tão grave encargo. Mas não tive a menor dificuldade quanto a esse assunto, porque é bem sabido que cada dia estão a morrer e apodrecer com o frio e a fome, e a porcaria e as doenças, tão depressa quanto se poderia razoavelmente esperar.

Quanto aos jovens trabalhadores rurais estão numa situação igualmente esperançosa. Não conseguem arranjar trabalho e, consequentemente, definham por falta de alimento com tal rapidez que, se em qualquer momento fossem acidentalmente contratados para tarefas comuns, não teriam forças para as executar. Assim, felizmente, o país e eles próprios ficam desembaraçados dos males por vir. A minha digressão já vai longa, por isso regressarei ao assunto. Penso que as vantagens da proposta que faço são óbvias e muitas, bem como da maior importância.

Porque, em primeiro lugar, como já constatei, iria diminuir grandemente o número de papistas, com os quais estamos anualmente infestados, sendo estes os principais procriadores da nação bem como os nossos mais perigosos inimigos. E os que ficam em casa com o propósito de entregar o nosso reino ao Inimigo, esperando obter os seus lucros com a ausência de tantos bons protestantes, que escolheram antes abandonar o seu país do que ficar por cá e, contra a sua consciência, pagar impostos, e sustentar um curador episcopal.

Segundo, os rendeiros mais pobres terão algo de seu bem valioso que, por lei, pode ser destinado a aliviar e pagar a renda aos seus senhorios, já que o gado e os cereais lhes terão sido já tomados, e ser o dinheiro uma coisa desconhecida.

Terceiro, enquanto a manutenção de cem mil crianças, com dois anos e mais velhas, não pode ser computada a menos de dez xelins por cabeça per annum, os recursos da nação seriam, por esta via, aumentados em cinquenta mil libras per annum, além do proveito de um novo prato poder ser apresentado às mesas de todos os cavalheiros de fortuna do reino com algum refinamento de gosto. E o dinheiro circulará entre nós, sendo os bens inteiramente de nossa produção e manufactura.

Quarto, os procriadores constantes, além do ganho de oito xelins esterlinos per annum pela venda de cada filho, ficarão livres do fardo de ter que os sustentar além do primeiro ano.

Quinto, este alimento iria igualmente trazer grande comércio às tabernas. Aí, os taberneiros serão seguramente tão previdentes quanto a procurar as melhores receitas para temperar a carne na perfeição e, consequentemente, ver as suas casas frequentadas por todos os cavalheiros finos, que se avaliam justamente a si próprios quanto ao seu conhecimento em boa comida: e um cozinheiro
habilidoso, que sabe como dar prazer aos seus convidados, arranjaria maneira de a tornar tão cara quanto lhe apetecesse.

Sexto, isto seria um grande incentivo ao casamento, que todas as nações sábias pretendem encorajar seja com recompensas, seja obrigando-o com leis e penalidades. Aumentaria o cuidado e ternura das mães para com os seus filhos, pois ficariam seguras de terem arranjado um emprego para toda a vida para os pobres bebés e, de certa forma, serem providas pelo público para o seu ganho anual, em vez de terem despesas. Veríamos uma emulação honesta entre as mulheres casadas, sobre qual delas poderia produzir a criança mais gorda para o mercado. Os homens ficariam a gostar tanto das suas mulheres durante o tempo da gravidez como gostam agora das suas éguas prenhas, das vacas com crias, das porcas prontas a parir – nem se proporiam bater-lhes ou dar-lhes pontapés (como é prática tão frequente) com medo de um aborto.

Muitas outras vantagens poderiam ser enumeradas. Por exemplo, a adição de cerca de mil carcaças à nossa exportação de carne salgada; a propagação da carne de porco; e a melhoria da arte de fazer bom fiambre – tão requisitado entre nós e demasiado frequente nas nossas mesas – a provocar a destruição de porcos os quais, de modo algum são comparáveis em gosto, ou magnificência, a uma criança de um ano, bem alimentada e gorda que, assada inteira, faria bela figura numa festa do presidente da câmara, ou em qualquer entretenimento público. Mas esta e muitas outras omito, sendo um adepto da brevidade.

* * * * *

Apesar de tudo, não estou assim tão fortemente agarrado à minha opinião que rejeite qualquer oferta feita por homens sábios, que possa ser considerada igualmente inocente, barata, fácil e eficaz.

Mas, antes que qualquer coisa desse tipo seja aventada em contradição à minha proposta e oferecendo melhor, desejo ao autor ou autores que façam o favor de considerarem atentamente dois pontos:

Primeiro, dado o estado das coisas neste momento, como serão capazes de encontrar comida e roupa para cem mil bocas e membros inúteis.

E, segundo, havendo um milhão redondo de criaturas com figura humana por todo este reino, cuja subsistência total posta em armazém comum as deixaria com uma dívida de dois milhões de libras esterlinas – adicionando os que são pedintes por profissão ao volume dos lavradores, aos habitantes de barracas e trabalhadores rurais, com as mulheres e crianças que são pedintes de facto: desejo a esses políticos que não gostam do meu projecto, e podem talvez ser tão ousados quanto a tentar uma resposta, que perguntem primeiro aos pais desses mortais se, neste momento, não achariam ter sido uma felicidade enorme terem sido vendidos como alimento com um ano de idade da maneira que proponho, e por essa via ter evitado uma cena perpétua de desgraças como têm suportado com a opressão dos senhorios, a impossibilidade de pagar a renda, estarem sem dinheiro ou negócio, terem a falta de sustento comum, sem casa nem roupas para os cobrir das inclemências do tempo, e o mais inevitável prospecto de acarretarem as mesmas misérias ou maiores sobre as suas crianças para sempre.

Professo, na sinceridade do meu coração, que não tenho o menor interesse pessoal em tentar promover este trabalho necessário, não possuindo outro motivo além do bem publico do meu país e, pelo avanço do nosso comércio, de prover pelas crianças, aliviar os pobres, e dar algum prazer aos ricos. Não tenho crianças com as quais possa conseguir um único tostão, pois o meu filho mais novo tem nove anos e a minha mulher está além da idade de procriar.

FIM

Jonathan Swift - Uma modesta proposta para prevenir que, na Irlanda, as crianças dos pobres sejam um fardo para os pais ou para o país, e para as tornar benéficas para a República (1729) - Tradução de Helena Barbas

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