domingo, 18 de janeiro de 2015

Poeta Castrado, Não! - Poema de José Carlos Ary dos Santos

Poeta Castrado Não José Carlos Ary dos Santos
José Carlos Ary dos Santos
Lisboa, 7 de Dezembro de 1937 - Lisboa, 18 de Janeiro de 1984

Poeta Castrado, Não!

Serei tudo o que disserem
por inveja ou negação:
cabeçudo dromedário
fogueira de exibição
teorema corolário
poema de mão em mão
lãzudo publicitário
malabarista cabrão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado não!
Os que entendem como eu
as linhas com que me escrevo
reconhecem o que é meu
em tudo quanto lhes devo:
ternura como já disse
sempre que faço um poema;
saudade que se partisse
me alagaria de pena;
e também uma alegria
uma coragem serena
em renegada poesia
quando ela nos envenena.
Os que entendem como eu
a força que tem um verso
reconhecem o que é seu
quando lhes mostro o reverso:
De fome já não se fala
- é tão vulgar que nos cansa -
mas que dizer de uma bala
num esqueleto de criança?
Do frio não reza a história
- a morte é branda e letal -
mas que dizer da memória
de uma bomba de napalm?
E o resto que pode ser
o poema dia a dia?
- um bisturi a crescer
nas coxas de uma judia;
um filho que vai nascer
parido por asfixia?!
- Ah não me venham dizer
que é fonética a poesia !
Serei tudo o que disserem
por temor ou negação:
Demagogo mau profeta
falso médico ladrão
prostituta proxeneta
espoleta televisão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado, não!


José Carlos Ary dos Santos, in Resumo. Num tempo em que há tantos castrados por aí, muitos que são castrados, mas mais ainda os que se castram a si mesmos, num tempo de mesquinhez, inveja, pequenez, num tempo de cobardes, aqui recordo um conhecidíssimo poema de José Carlos Ary dos Santos, no dia em que passam 31 anos desde a sua partida para junto dos astros.

2 comentários :

  1. Uma coisa era o homem - nojento.
    Outro, a sua obra - notável.
    Sou suficientemente lúcido para fazer a distinção.

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    Respostas
    1. Não mora aqui lucidez alguma. O que mora aqui, sr. Roque, é o preconceito e...fico por aqui.

      Sabe, é assim que, habitualmente, as figurinhas e figurões, falam das figuras.

      João Pedro

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