quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

A Cerimónia do Adeus

Despedida, Adeus, Au Revoir, Goodbye

«A Cerimónia do Adeus» é o título de uma obra de Simone de Beauvoir em que a autora narra os últimos 10 anos da sua relação com o companheiro de sempre, Jean Paul-Sartre, de 1970 a 1980, ano da morte do escritor e filósofo. Ofereceram-me o livro - é apenas mais um livro que (talvez?) nunca lerei. Sinto - neste momento (corremos sempre o risco de estar enganados) - que nunca mais lerei um livro.

Encontrei a imagem acima, perdida algures na internet - como acontece com tantas outras imagens, não consegui encontrar o autor ou a autora dela. Nunca gostei de despedidas - evito-as sempre que posso, sejam despedidas para sempre, sejam despedidas que se prevêem longas, sejam simples despedidas da mesa de um café de amigos que quase todos os dias vemos. Mas não foi por isso que, ao encontrá-la, a achei adequada para este post.

Justa ou injustamente, toda a vida me senti uma criança abandonada - dentro de mim, essa criança que talvez ainda lá viva, ainda chora por dentro a lágrima que nunca deixará correr pela face. Dentro de mim, essa criança, ainda olha para trás, esperando quem nunca virá para lhe dar a mão. E que lha dessem - essa criança não deixaria que lha agarrassem. Porque lá no fundo, dentro dessa criança que há dentro de mim, essa criança sabe que para tudo há um momento.

Herberto Helder, na conhecida obra «Os Passos em Volta» escreveu a conhecida frase «-Se eu quisesse, enlouquecia.» Eu por vezes desejo enlouquecer - talvez já tenha enlouquecido, e na minha condição de louco, ainda não saiba, nunca venha a saber. Está frio, muito frio. Talvez eu não esteja no meu quarto, na minha cama, semi-deitado com o computador portátil ao lado, escrevendo este post sem jeito nem sentido; talvez esteja antes num manicómio, preso numa camisa-de-forças.

Talvez enlouquecer seja apenas isto: já não ter sonhos, nem desejo de os ter. Ou talvez seja isto: receber mensagens (e-mails, etc), responder-lhes, e - não obtendo depois resposta - ficar a cogitar se não serei eu próprio quem envia para mim mesmo as mensagens. Não há certezas, eu não as tenho, pelo menos - e como invejo (e me irritam) as pessoas que falam com tanta certeza de tudo - pergunto-me se não será uma maneira de se enganarem a si mesmas.

Outra coisa que me irrita - so-le-ne-men-te - é o altruísmo - esse altruísmo todo oferecido, que no fundo mais não faz que tentar mudar o Outro. Vocês aí, se é que alguém me lê, antes de entrarem em altruísmos, aprendam a colocar-se no lugar do Outro; cogitem bem se o Outro a quem se estão a dirigir é mesmo o Outro, ou apenas uma versão de vocês mesmos projectada no Outro. É que há altruísmos mais irritantes e egoístas que o Egoísmo. Este último, ao menos, tem a hombridade de ser honesto. O que não quer dizer que os egoístas o sejam - mas também a Verdade pode ser mentirosa, e a Mentira, verdadeira.

Tinha mais umas coisas para escrever, mas é tarde. Vou antes fumar um cigarro, e deixar a vida correr. De qualquer maneira ela correria...

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