quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Vida e Opiniões.

Penso muitas vezes em escrever posts que nunca chegam a ser escritos, sobre temas diversos, num estilo que junte Laurence Sterne, Edward Lear, Lewis Carroll, e Boris Vian. Ainda não será desta vez.

Obrigado, Um Jeito Manso, pela referência - bastava-me o primeiro prémio - e a chave da porta da quinta, porque são seis e vinte e três e eu já dormi um par de horas, mais alguns minutos, e sonhei com ela - com a chave da porta, não se gerem equívocos.

Passaram dois meses e nada. Dia vinte e sete terão passado dois meses e nada. Contudo apenas dia oito do mês que vem em primeiro no ano que se segue é que se completam dois meses e nada. Nada mesmo.

Um dia elimino os aindas e os entãos e os mas contudo ainda não é hoje; farei uso deles, então. Mas, mas, mas. Podia ficar aqui a escrever até que o Colibri. Eu sei - tu sabes. Mas, merda. E o saldo, o saldo. É só débitos, e o mundo já não está bom para fugas, desaparecimentos, e novas identidades - não em histórias verosímeis. Raios partam a tecnologia - estragou os romances policiais - vai acabar por estragar as histórias de amor.


Podíamos ficar a noite toda a conversar, apenas a conversar. É tão raro, tão único, tão lindo - tão belo. Pois. Todavia - todos vemos o mundo pelo nosso umbigo - não temos outro - e não vemos nada por ele, que não há nenhum umbigo que veja. Estamos cegos - e cegos - e cegos... Não, não me obriguem a completar esta frase.

Já decidi. Não vou à ceia de consoada, nem ao almoço do dia de Natal - uma pessoa quanto mais se baixa mais se lhe vê o rêgo do cú. Não levam acento? O caralho, que eu escrevo como quero, e ainda há-de vir o primeiro filho de uma gordíssima rameira que me diga como é que devo escrever. Vão escalar paredes ou o Evereste, tanto me faz.

Não posso falar a ninguém do Brazil que fica logo tudo de boca aberta. Eu próprio salivo. Um amigo meu, brasileiro do Rio, o meu amiguinho Carioca, como lhe chamo, perguntou-me em tempos se os Portugueses gostam muito do Brazil e dos Brasileiros, que ele tinha essa ideia. Olha, não sei. Há de tudo, como em todo o lado.

Dois meses e catorze dias e nada - nem uma linha lida - nada. E imaginem! Este ano recebi um livro de presente - ou prenda? - A Origem das Espécies. E eu não tenho um chavo para prendas, nem presentes, nem nada. Preferia que não me dessem nada. Nada. Sempre fui mais de oferecer, nunca gostei muito de receber - embora a ausência de algumas pessoas me magoasse, em tempos. Habituamo-nos a tudo. Até à ideia de Morte. Já nada me magoa. Nada.

Digo sempre que prefiro A Vida e Opiniões de Tristram Shandy, Cavalheiro a O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de La Mancha, porque um dia decidi que tinha que preferir um e calhou preferir o primeiro, todavia... Não sei, não sei nada. Gosto muito dos dois, que drogas terão tomado? E o Tom Jones, e o Tom Jones... Cronologicamente, pela data de nascimento, Jeff Buckley foi o último músico de que gostei.

A grande ironia. A grande ironia é que era sempre literal o que dizia quando ironizava, depois aprendi que as pessoas adoram que lhes mintam e profissionalizei-me, até que me marimbei e voltei à verdade, voltei a ironizar. Continuava o mesmo idiota de sempre. Digo vacuidades e as pessoas procuram significados profundos - são estranhas as pessoas. Entendo-as bem, mas nunca conseguirei ser como elas, devo ser um alien em Nova Yorque.

E se o cheque não chegar? É uma porra, pois é! Há sempre a opção da arma de fogo, a opção do comprimido de cianeto, e a opção da corda - ou a da ponte: para debaixo da ponte, que nenhuma das hipóteses anteriores me convém. Vamos falar a sério? É a sério - tenho este vício, falo sempre a sério! (A quantas mortes conseguimos sobreviver? - Ia fazer um trocadilho com um sinónimo de fanchono, mas depois lembrei-me do **** e, ****-**, quase chorei, que é coisa de maricas, como sabem).

E não vou fazer piadas com louros, nem com gregos, nem com dinamarqueses, nem... Não vou continuar a sequência porque senão não consigo cumprir a promessa e, que querem?, gosto: até nos guisados. Estão a acompanhar a viagem do Pai Natal em directo no google maps? Deviam, não vos vá o velho apanhar a fazer malandrices, que lá se vai o presente (ou a prenda?)

Portanto, que opções?! Nenhuma. Como resolver este paradoxo, oh filósofos, oh matemáticos, oh economistas, oh políticos, oh merda!, como optar quando não há opções? - nem umazinha, assim com uma visãozinha muito restrita, muito neo-liberal, muito caminho único. Isso do «caminho único» é extremamente fascista, não é? PERDESTE A DISCUSSÃO! Não, Não!, isso só quando falar de Hitler. Pronto, satisfeitos?

Claro que prefiro as pessoas bonitas e com olhos azuis às pessoas feias como eu - e claro que os feios deviam morrer. É Boris as pessoas não se dão conta que nunca leram nunca me canso de o repetir a Alice nem nada que valha a pena e depois escandalizam-se com pintelhos lá como diz o outro o electricista do blackberry. Sem vírgulas e tudo.

Onde tínhamos ficado? Ah, já me recordo! Um dia destes pensei numa história para um romance com duas personagens que são almas gémeas mas que viveram em séculos diferentes, coitadas! Vinte ou trinta anos ainda dava para escândalo, a não ser que seja uma miúda de dezoito com um velho de oitenta (malandro!), mas em séculos diferentes não dá para nada, mas se for um rapazito de dezoito com um velho de oitenta (pervertido!) ou com uma velha de oitenta (a velha nunca mais morre?), que outras combinações há?, mas já alguém deve ter pensado nesta ideia, e eu vou voltar-me antes para os tacos de bilhar, ou com uma máquina do tempo, hum?

Podia escrever cartas de amor - mas teriam que ser anónimas (e ridículas, pá! - sim, eu sei Álvaro), que raio de chatice mais a porra dos mas - o que era - era, era!, - aborrecido. Qual o objectivo de escrever cartas de amor anónimas? Para isso mais vale ficarem-se pelo amor platónico, não arranjem complicações - ou encontrem-se às escondidas, com esquemas marados, que um sobressaltozinho faz bem a qualquer história de amor - por isso é que já não se escrevem histórias de amor como antigamente... - ou então que fossem para um país islâmico, ou para essas áfricas onde ainda se cometem essas barbaridades daquelas que já não se cometem nas europas e nalgumas américas, que nós aqui somos muito refinados, agora só cometemos barbaridades civilizadas.

Sou mau, sou vil, sou reles. Sim, eu sei que o verso original não tem o «sou mau», mas também tem o «como toda a gente» e eu não o meti ali atrás, portanto não reclamem. Até porque sou mau, sim sou mau e só tenho pena de não poder ser pior. «A alma humana é porca como um ânus/ E a Vantagem dos caralhos pesa em muitas imaginações.» Depois destes versos, como é que continuam a existir Psicólogos e Poetas? Não vêem, oh alminhas, que já está tudo dito? Ah, «Está frio.» «Ah, parte a cara à vida!»

Havia de ser uma história bonita, mas nas nossas imaginações todas as histórias são bonitas, e no fim não nos resta senão lembrar esses breves momentos em que pensámos que a sintonia perfeita, total, e inteira, era possível. Ou chorar. É por isso que as histórias de amor terminam no Encontro - ah, se contassem o que vem depois!...
(«Encontro» com maiúscula, percebem?)

«Oh detritos humanos» - já há algum verso assim? Se não houver, que fique aqui bem assente que o registei primeiro! Depois lhe arranjarei um poema onde o enfiar - ou deixo-o assim solto, um verso inteiro e limpo: não estou a fazer associação de ideias com o 25 de Abril, estejam descansados.

Onde deixámos a conversa? Provavelmente nalgum cinzeiro, ou no caixote do lixo, ou pode ser que alguém a tenha guardado, e um dia possamos continuá-la. Dezassete anos é dose - é dose! - Quantos corpos, quantos caminhos, quantos olhares, quantas almas destroçadas, quantos corações partidos - daqui a pouco parece um daqueles poemas do Pablo Neruda, que dão a volta à América do Sul e não conseguem chegar a lado nenhum. Dezassete anos para voltar a ter uma conversa!

Quando o rastilho se acende - se estivesse a escrever em Inglês utilizaria a palavra «spark» porém «faísca» «centelha» «fagulha» ou outro qualquer sinónimo em Português não me satisfazem - conhecem aquela história «Se o meu avô fosse a minha avó»?

Claro que conhecem. Pois bem, agora a ciência já permite isso, portanto não estejam para aí a fazer muafas. Nem amuem com esta conversa, que afinal de contas só vai a meio, e já que aqui chegaram, a algum lado havemos de chegar. Quando o rastilho se acende - ainda está nas nossas mãos apagá-lo?

Bem sei que é nitroglicerina - um bom escândalo nunca fez mal a ninguém - excepto na música dos Queen, que é, quanto a mim, uma das suas piores. E pensar que ainda era um escândalo - ah, esperem aí, estão-me aqui a dizer que ainda é na maior parte dos locais. Em que é que estavas a pensar, oh meu Deus, quando criaste o Homem? (Quanto à criação da Mulher nem vamos discutir o assunto, que o que tem a menos em problemas de hardware, tem a mais em problemas de software). Vou levar tanta porrada que nunca mais me endireito. A minha sorte é sou de esquerda senão estaria com problemas de dissonância cognitiva. Da minha esquerda, bem entendidos!

Este é aquele momento em que, se tivesse algum conflito entre ideias atitudes e comportamentos incompatíveis, apagava este texto todo e seria como se nunca tivesse existido. E depois chamavam nomes feios a quem?

Ou se tivesse juízo.

Para que isto tenha alguma lógica: alguns pais deviam levar uma carga de porrada bem valente quando dão o nome aos filhos. É que não é a mesma coisa que dar um iPhone - parte-se e substitui-se. Não. É para toda a vida, mesmo que viva em países onde em adulto possa mudar de nome - a criatura fica lá com o trauma para sempre. Portanto aconselho uma vez mais a leitura da Vida e Opiniões do Cavalheiro Tristram Shandy que ficou com um nome que lhe assenta como uma luva da outra mão.

Se Dom Quixote não se tivesse chamado Alonso Quijano, Dom Quixote teria existido?

E não me perguntem «O que é que isso importa?» porque são justamente estas as questões que têm importância, oh génios das mansardas! Porque se não entenderem isto nunca vão entender coisa nenhuma que valha a pena ser vivida, não interessa com que rebuscadas palavras o possais dizer. Os obedientes merecem ser escravizados.

Pois, para além de todos os outros senões, malvados anões!, o maior de todos é esse. Este: é a ti próprio que tens que questionar antes de mais. E nunca é demasiado cedo - nem demasiado tarde; excepto se ainda não gozares das faculdades mentais que te permitam ter consciência de ti mesmo, ou se já não gozares dessas mesmas faculdades mentais - ou, mais radicalmente, se ainda não tiveres nascido, ou se já tiveres morrido. Uma chatice em todos os casos. Mas não é esse o caso!

Olhares-te ao espelho, na metáfora existencialista. Algumas pessoas passam por toda a vida, e algumas vidas parecem tão longas que nunca mais acabam como uma viagem pelo meio do deserto, sem nunca tirarem a máscara. «Depus a máscara e vi-me ao espelho...» Nem isso, algumas pessoas.

Entretanto começou a clarear e é já dia - é hoje que me vou levantar a horas decentes - embora não tenha dormido decentemente. Lamentavelmente vamos ter que deixar esta nossa conversa a meio. Antes de terminar:

- Onde será a próxima vez, se a houver? Numa situação que não permita compromissos, coisa típica dos cobardes mais enrustidos: arvoram-se da coragem que não têm. Se morder, mordo com jeitinho, não é para aleijar. Mas a ferida que não chegar a doer é mais grave que a que dói.

Provavelmente nunca aqui chegarás. É pena. Um dia destes talvez continuemos. Pois, mas a vida não se compraz.

2 comentários :

  1. Gostei muito desta tua longa reflexão. Abraço solidário.

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    1. Obrigado João. São apenas «coisas» esparsas...

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