quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Um por Cento: a vida e as opiniões que uma triste sombra teve.

Rhein II - fotografia de Andreas Gursky

Que uma fotografia possa valer mais que uma vida humana diz tudo sobre o ser em que nos tornámos, embora o mesmo possa ser dito de muitas outras maneiras, à escolha, e apenas como exemplo: que uma arma possa ser mais valiosa que uma vida huma... Espera, uma arma é para tirar a vida. Recomecemos: que um jogador de futebol possa ganhar mais num mês que a maioria dos seres humanos em toda a vida; que um actor de cinema, idem. Vamos deixar este assunto aborrecido que ainda é Natal, e é muita paz, e muita harmonia, e muito amor, e muito carinho, e o mês de Janeiro a fazer contas à vida.

Gosto de Rhein II. Gostei logo na primeira vez que vi a fotografia, mas nunca, nunca, nunca, por mais dinheiro que tivesse, e não chega aos três dígitos o que tenho (agora façam contas), nunca daria por ela nada que se assemelhasse ao que foi dado: 4 milhões 338 mil e 500 dólares. Eu sei que não se deve misturar assim o sistema numérico com o ortográfico, mas não me arreliem que eu estou-me a marimbar para as convenções. Gosto menos desde que descobri que a fotografia foi manipulada digitalmente.



Um por cento. Um por cento já me bastava. Mas nem isso nem nada. Um por cento de qualquer coisa. Mas nem isso. Tenho que me contentar com um por cento de nada. Há tipos com sorte, lá isso há. Eu nem máquina fotográfica, quanto mais fotografias para vender, e tantos fotógrafos sem trabalho. Um por cento de nada. Ainda sabem fazer contas? Nada. «Não sou nada./ Nunca serei nada./ Não posso querer ser nada./ À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.»

Nada. Nunca terei nada. À parte isso, vou todos os dias ver o e-mail, pode ser, nessa improbabilidade que é a vida, que haja um fundo, um fundinho de verdade. Mas nem a um por cento chega a probabilidade de um milagre. «É apenas a vida a gozar contigo», «Ó sombra fútil chamada gente!» Quantos seres humanos tiveram que se cruzar, tiveram que se encontrar, amando-se ou tomando-se com violência, para chegares aqui?

Tentamos decifrar nas palavras dos outros os significados ocultos que vivem em nós. Provavelmente as tuas palavras querem dizer apenas o que dizem; não há em tudo um sentido oculto, figurado. Anda, vem deitar-te aqui, no meu sofá improvisado de psicanalista à pressão. Despe-te dos teus medos, dos teus receios, das tuas máscaras, deixa-me ver. Ó diabo. Edward Morgan Forster têm uma frase na obra Um Quarto com Vista mas não me recordo das palavras exactas, só sei que estão na contracapa do meu exemplar perdido além entre os cerca de dois milhares de outros volumes de outras obras de outros autores.

Onde ficámos ontem? Vieste ler? Nunca saberei - ou talvez. Talvez. Talvez. Há sempre a porcaria de um talvez. Mesmo que ter perguntasse se vieste ler, haveria sempre um talvez, um outro talvez, mas um talvez. Talvez. Vamos deixar-nos destas frases monótonas. Porque ainda que tivesses lido.

E o meu e-mail foi entregue? Foi lido? Não recebi nenhum aviso, nem pedi recibo. Mas isto é outra conversa.

Rhein II foi durante muito tempo a fotografia mais cara - agora foi ultrapassada por uma pior. Havia de arranjar por aí um curso de fotografia - grátis - porque há alguma coisa que me está a escapar. Mas na ordem dos milhões tudo pode acontecer, num mundo que parece movido a dinheiro, é velocidade a mais. Qual é a discussão do dia? Se o Sócrates comeu bacalhau?

Já sinto leite cá pelo rêgo. Não há português que não sinta, mas são todos muito machos, nosso senhor. Sim, eu sei, eu sei que prometi não voltar a falar da puta lítica. Saberão vossas excelências o significado de «lítico»? Se sabem não digam, se não sabem está na hora de levantarem a bunda preguiçosa e pegarem naquele livro grosso que têm lá em casa com um título indecoroso: «dicionário». Não é Domingo, mas eu também não sou o João Ubaldo Ribeiro. É feriado, que é uma espécie de Domingo de segunda categoria, às vezes terceira, nalguns casos artigo de luxo.

A frase «Não é Domingo, mas eu também não sou o João Ubaldo Rebeiro» pode parecer puro nonsense para quem não conheça o João Ubaldo Ribeiro, ou para quem não conheça bem. Vão ler-lhe as crônicas - e tudo o resto; não darão o vosso tempo por mal empregue.

Porventura (que foi a primeira palavra que me veio à cabeça para não ter que utilizar novamente o estafado «talvez») - porventura, porque foi um acaso - foi o golpe que faltava para acabar com as poucas forças que me restavam - ainda não dormi, que fui jogar lerpa, mas acabei por não jogar, que já estava muita gente a jogar, limitei-me a assistir a intervalos - quiçá tenha sido a força inconsciente que me arrastou por mais alguns metros.

É um caminho sinuoso. E perigoso. Demasiado perigoso.

Ou tudo é afinal um rio tranqüilo que vai desaguar no rio onde tem que acabar? Um dia deste ouvi um indivíduo dizer, literalmente, tran-qui-lo. Depois falem-me em acordos ortográficos. Por mim voltávamos a 1911 e começávamos a conversa. Mas Portugueses e Brasileiros divertem-se - como rapazinhos da primária a comparar pilinhas - a destruir a Língua. Fazem bem. Afinal um dia o Sol... De qualquer modo é ininteligível: a pilinha maior é a dos Angolanos.

Um jogo demasiado perigoso.

Li agora no site do Público que os trabalhadores da TAP se acobardaram. Têm a pilinha murcha - no país do salve-se quem puder, feito por cobardes, interesseiros, e invejosos, serve perfeitamente para lixar tudo; que é para não dizer um palavrão: *****.

Se disto: ***** dizemos «palavrão», que diremos disto: Oftalmotorrinolaringologista?

«GNR multou condutor de ambulância que parou para reanimação de idosa». Num país onde as notícias parecem saídas de uma obra de humor, a bitola do jornalismo é o Correio da Manhã. Entretanto a multa foi arquivada. E eu ainda perco tempo a passar os olhos pelos títulos das notícias.

Colibri. É no que penso, quando penso em ti. «Agora pensa». Mais cabelo, menos barba. Mais dinheiro, menos preocupações. E a vida caminharia noutro sentido, embora, lá está a voz chatinha da consciência a refilar-me ao ouvido, que também é muito birrenta, caminhando em que sentido caminhar, há-de sempre chegar ao mesmo lugar.

É um grande mistério, é provável que nunca seja resolvido, Hercule Poirot morreu, por mais vezes que o ressuscitem (ora aqui está uma palavra que a minha dislexia coloca sempre em dúvida), não há célulazinhas cinzentas que o resolvam. Tenho fome e sono. Comer qualquer coisa - e tentar dormir. Coisas ininteligíveis: quantas noites passei em branco, embora carregadinho de sono?

2 comentários :

  1. Desculpa-me André, mas penso que estás a ver TUDO por um lado extremamente negativo e nem uma centelha de esperança se vislumbra nas tuas palavras.
    Há que ter alguma força para superar as dificuldades e eu não quero com isto parecer esquecer as tuas que são muitas, eu sei.
    Mas desistir é muito mau, mesmo que seja só nas palavras proferidas.
    Abraço.

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    Respostas
    1. Não há lados certos - nem lados errados. Não há lados positivos - nem lado negativos. Há a vida, súmula de absurdos. Pó das estrelas.... Abraço.

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