segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Sophia e Cecília

Sophia de Mello Breyner Andresen


Há coisas estranhas e sem explicação. As minhas duas poetisas dilectas, Sophia de Mello Breyner Andresen e Cecília Meireles, nasceram em datas consecutivas: Sophia a 06 de Novembro, Cecília a 7 de Novembro. E só este ano reparei nesse facto. Aqui deixo dois poemas destas princesas da poesia em Língua Portuguesa.

Cecília Meireles




Quero uma solidão, quero um silêncio,
uma noite de abismo e a alma inconsútil,
para esquecer que vivo - libertar-me

das paredes, de tudo que aprisiona;
atravessar demoras, vencer tempos
pululantes de enredos e tropeços,

quebrar limites, extinguir murmúrios,
deixar cair as frívolas colunas
de alegorias vagamente erguidas.

Ser tua sombra, tua sombra, apenas,
e estar vendo e sonhando à tua sombra
a existência do amor ressuscitada.

Falar contigo pelo deserto.

Cecília Meireles, Em «Poesias completas de Cecília Meireles, 4». O poema pertence, originalmente, à obra «Solombra».

Eis que morreste. Mortalmente triste
Divaga a flor da aurora entre os teus dedos
E o teu rosto ficou entre as estátuas
Velado até que o novo dia nasça.

Se nenhum amor pode ser perdido
Tu renascerás - mas quando?
Pode ser que primeiro o tempo gaste
A frágil substância do meu sono.

Sophia de Mello Breyner Andresen, in Coral.

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