segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Há mais 500 crónicas de João Ubaldo Ribeiro para ler

Bacurinho*

No início dos anos 1960 João Ubaldo Ribeiro começou a trabalhar como repórter no Jornal da Bahia; o imortal escritor Brasileiro, com 22 anos na época, escreveu então cerca de 500 crónicas anónimas, onde «um personagem batizado de Theóphilo ironizava problemas da cidade». A crónica era uma das mais lidas do jornal, e só agora foi revelado quem era o seu autor.

De entre as várias obras publicadas pelo autor dos romances Viva o Povo Brasileiro, O Sorriso do Lagarto, Sargento Getúlio, Diário do Farol, ou A Casa dos Budas Ditosos, João Ubaldo Ribeiro publicou algumas colectâneas de crónicas, entre elas Um Brasileiro em Berlim, O Rei da Noite, e Arte e Ciência de Roubar Galinha. Publicou também contos, ensaios, e obras de literatura infanto-juvenil.

Estás crónicas poderão agora vir a ser reunidas em livro. Também em breve serão publicados alguns contos em que o autor trabalhava aquando do falecimento em Julho. Leiam uma das crónicas «Theóphilo propõe interruptores a fim de estimular namoros»:



Passeando bucolicamente por muitos dos locais mais namoradísticos (neologismo theophiliano), Theóphilo tem notado que as lâmpadas andam sempre quebradas. Isso se deve, de acordo com sua brilhante dedução, ao fato de que os namorados, por alguma razão desconhecida, preferem ficar no escuro. Por outro lado, Theóphilo - apesar de apoiar entusiasticamente os namoros, como uma contribuição substancial ao futuro da nação - percebe que o referido escuro é pejudicial para os cidadãos sem namorada (ou cujas namoradas foram vivas e casaram com eles), já que indivíduos de ocupação singular, como ladrões e assaltantes, utilizam-se das trevas para seus propósitos espoliativos (Theóphilo solicita que seja perdoado o tom prolixo: ele andou lendo um livro de Celso Furtado).Desta forma, Theóphilo aplaude a iniciativa do pleclaro prefeito de Natal, que decidiu pôr interruptores nos postes, a fim de que as namoradas, sem serem obrigadas a depredar as lâmpadas da cidade, consigam a atmosfera desejada. Por outro lado, isso desencorajaria os ladrões e outros inimigos da propriedade privada (nas mãos do alheio), já que se poderia, facilmente, lugar a luz em caso de necessidade.Theóphilo tem suas fortes suspeitas de que o idealizador dos interruptores foi um tio seu que mora em Natal e que costuma ter inspirações assim... luminosas, digamos. Esse tio, apesar de não mais namorar (forçado pelas circunstâncias, talvez, já que vontade e disposição não lhe devem faltar), deve ter pensado na coisa no seu tempo de conquistador juvenil. Apenas, naquela época, não era uma figura importante, que podia dar palpites ao prefeito. Considerando-se que a ideia deve ter partido da família, Theóphilo propõe que seja ela adotada em Salvador, em locais como o Campo Grande, o Passeio Público, Largo da Ribeira, Belvedere da Sé e muitos outros. Poderia ser, inclusive, nomeada uma comissão para estudar o caso, verificando quais as zonas mais namoradísticas da cidade. Afinal de contas, o poder público precisa apoiar o namoro, com decisão e denodo.

*Não, «bacurinho» não é baianês - é mesmo português, talvez arcaico, termo muito utilizado por qualquer pessoa com mais de 60 anos das Beiras (Portugal)...

2 comentários :

  1. Li recentemente o seu último romance - "O Albatroz Azul" - e gostei bastante.

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    1. Ainda não li «O Albatroz Azul"... Se dinheiro houver (não sei de onde), hei-de comprar todas as obras do João Ubaldo Ribeiro.

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