domingo, 15 de junho de 2014

Quando Dom Quixote Morreu

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O encantamento de Dom Quixote
Ilustração de Gustave Doré
Um livro como o Quixote, que propiciou tantas ocorrências despropositadas e tantas teorias lunáticas, talvez possa suportar mais uma. E é estranho que esta não tivesse ocorrido a outros muito antes. Estou a pensar, por exemplo, em Unamuno, tão lusófilo, e parece-me recordar que, numa das suas páginas, chega a dizer algo parecido. Se não é assim, se agora tudo é fruto da minha imaginação ou da minha memória fictícia, creio modestamente que poderia ter sido uma ideia do nosso Dom Miguel de Salamanca, e ele tê-la-ia sabido desenvolver com muito mais talento do que eu. Aqui vai: A personagem de Dom Miguel de Alcalá, esse Dom Quixote que para Unamuno tinha mais valor do que o próprio Cervantes, era portuguesa. É possível que Cervantes se tivesse inspirado em qualquer dos fidalgos pobres da Mancha, mas, sem dúvida, insuflou-lhe uma alma portuguesa, que o autor conhecia muito bem através das muitas viagens que o levaram a atravessar as fronteiras de Portugal, nos anos em que o Rei Filipe cometeu o seu maior erro político, ou seja, não ter transferido de Valhadolide ou de Madrid a capital do reino para Lisboa.

Dizia o nosso José Bergamín que, após a separação dos dois reinos, os fandangos e a pólvora tinham ficado deste lado do Mediterrâneo, indo a tristeza, o fado e a melancolia para o lado do Atlântico. «Deixaram-nos esta odiosa alegria que não se pode aguentar», dizia Bergamín literalmente, «e com eles foi o doloroso sentir». Com a nossa raivosa alegria ficou também um certo realismo zombador, sarcástico e cruel. O idealismo de Cervantes acabou por ser vencido pelo tosco e interessado pragmatismo de Quevedo. Com a saudade foi-se também a nossa finura de espírito e o silêncio. Assim o silencioso (mas não mudo) Dom Quixote, só poderia ser português; tal como Sancho espanhol. Cervantes acabou por unir as duas terras e as duas almas num mesmo corpo, o do seu livro.


Deixo aqui estas considerações para quem as achar sugestivas e as queira desenvolver. Com mais uma que acrescento: em Obras são Amores, comédia de Pedro Navarrete, contemporâneo de Cervantes, uma das personagens que aparece é Dom Quixote de la Mancha, figura familiar para um público popular. Passa-se a acção numa pousada de Puerto Lápice. Logo que Dom Quixote faz a sua aparição, forma-se em seu redor uma animada assembleia de gente que o pretende enganar. Dom Quixote, que chega triste da sua derrota, não está para muitas brincadeiras e concilia toda essa algaraviada. E ele, que dissera: «sei quem sou», não hesita em começar por afirmar gravemente: «Como o Rei Dom Sebastião, / que tinha uma figura mais triste / ainda do que a minha...»
E mais não digo.

Andrés Trapiello, no Prólogo à edição portuguesa de Quando Dom Quixote Morreu, Madrid, 5 de Outubro de 2008.

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