segunda-feira, 5 de maio de 2014

O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de La Mancha

O Engenhoso Fidaldo Dom Quixote de La Mancha
Acabaram-se-me os livros por ler, e biblioteca é coisa a que tenho fobia - talvez um pouco menor que a fobia que tem o dinheiro à minha carteira: mal acabado de sair limpinho da bocarra gorgolejante da infernal máquina do dinheiro, foge-me logo a sete vezes setenta pés; não lhe chego a ver a cor, e se lhe sinto o cheiro só com desmesurado esforço do sentido do olfacto. Adiante. Deu-se-me uma vontade de reler Cem Anos de Solidão, mas tendo há muitos anos dado o meu livro como presente, encontro-me despido desse belo exemplar literário.
O meu exemplar não tinha a árvore genealógica da família Buendía - não vi nunca nenhum exemplar com essa mal-abençoada planta - desconfio até que a rapariga que me disse que o exemplar dela tinha uma árvore genealógica o fez para encher o meu pobre coração de inveja - ou foi o meu exemplar fruto do meu malfadado azar - uma planta, mas do género geográfico era o que também ficaria bem no meu exemplar do engenhoso - isso e as ilustrações de Gustave Doré.
Tendo lido por aí que na literatura hispânica* só O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de La Mancha ultrapassa em importância os Cem Anos de Solidão, botei-me a relê-lo passados cerca de quinze anos. Pensei primeiramente relê-lo na tradução dos Viscondes de Castilho e de Azevedo, pois o lera da primeira vez na tradução de Daniel Augusto Gonçalves (penso que seja o mesmo tradutor do meu exemplar de Tom Jones, de Henry Fielding) e de Arsénio Mota. A tradução de Aquilino Ribeiro, a que deitei algumas vezes os olhos folheando o exemplar da Bertrand nas livrarias nem tradução me parece. E para que estou eu a dar-lhe com isto das traduções? Para dizer, embora sabendo que dificilmente alguém me escute, que O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de La Mancha está necessitado de nova, urgente, e actual tradução.


Árvore genealógica da família Buendía
Ainda assim, perdoem-me o preguiçoso trocadilho, encho a pança com tanto riso com estas descabidas aventuras do engenhoso e desdentado fidalgo que anda por aí convencido da veracidade histórica dos romances de cavalaria, confundindo gigantes com moinhos, tomando castelos por vendas, e tratando donzelas como rameiras, entre outras confusões não menos paródicas.
Se alguma editora se lembrar de dar às estantes das livrarias nova edição com digna tradução da linhagem do nosso nobre andante cavaleiro, seu rocim Rocinante, e do seu esguio escudeiro, que se lembre também de lhe dar o papel, o tamanho, e o tipo de letra adequado.
O meu exemplar na versão dos Viscondes tem letra lamentávelmente pequena; na tradução de Gonçalves/ Mota, em dois volumes, cada um uma parte, é um pouco maior que pequenina - a largura das páginas é que não lembra nem ao demónio: para baixar para a linha seguinte é uma desorientação.
Entretanto, na última semana, reli os sete volumes de Harry Potter, que nem só de clássicos se alimenta a fome, Macbeth, Mafalda (quatro volumes, tão actuais!), e O País do Carnaval. Depois de acabar O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de La Mancha talvez me deite a David Copperfield que, para me contradizer, nunca consegui ler: chego à página trinta ou quarenta e não aguento - é um daqueles casos em que as adaptações cinematográficas me estragaram a obra.
Ou Os Três Mosqueteiros: a edição brasileira (São Paulo: 1960) é mais apetecível, tem melhor letra, embora o papel já esteja aqui e ali demasiado amarelecido, é em dois volumes, tem notas de rodapé a explicar as coisas e eu gosto muito de notas de rodapé instrutivas, a tradução parece-me melhor, têm porém por aqui e por ali algumas preguiçosas corrupções do texto original na falta de melhor termo. A tradução portuguesa é mais pesada (é num volume apenas), a letra microscópicamente pequena... D'Artagnan - o dom Quixote desse outro Rocinante, Dumas dixit. Enfim, assim tenho passado os meus dias de cão tinhoso nestes limpinhos tempos de limpa limpeza.

*Parece-me que o que queriam dizer seria mais qualquer coisa do género literatura castelhana... 

2 comentários :

  1. Se estivesses mais perto, vinhas aqui a minha casa e eu emprestava-te uma pilha de livros que decerto te interessariam muito.
    Quando puderes e quiseres, é só avisares.

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    Respostas
    1. Humm... É uma ideia a ter em conta. Embora agora ande a descobrir os prazeres da releitura - e as gargalhadas que este Dom Quixote me proporciona! Genial...

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