sábado, 31 de maio de 2014

Alberto da Costa e Silva - Prémio Camões 2014

Alberto da Costa e Silva, Prémio Camões 2014

Alberto da Costa e Silva é o vencedor da 26.ª edição do Prémio Camões. Desconheço a sua obra - é poeta, ensaísta, historiador, e memorialista - e assim sendo nada sei dizer da justeza ou não deste prémio. Entretanto, uma vez que fez parte do júri no ano de 2013 julgo que o seu nome não deveria ter sido considerado para este ano; mais ainda quando estava entre os membros do júri Mia Couto, que havia vencido em 2013. Para o prestígio do prémio e um mínimo de decência, há questões que não podem deixar de ser tidas em conta. Desconhecendo a obra, espero sinceramente que esta faça justeza ao prémio. De todo o modo, de destacar a ligação que o autor têm a várias literaturas lusófonas. Outro ponto: não há literatura em língua portuguesa noutros pontos do globo? Índia, Macau, Timor-Leste, Malásia, etc? Isto tem que ser sempre Portugal-Brazil-País-Africano-de-Língua-Portuguesa?

Um poema de Alberto Costa e Silva, Aparição em Fortaleza:



Ruas e sombras de Fortaleza, meninas doces,
árvores velhas onde esqueci a infância que foi
tão triste e tão pouca, cidade onde o amor
está tombado a teus pés,
frágil e puro
como uma flor.
Onde caminho cercado pelos meus fantasmas,
entregue aos meninos que são o que fui,
embalado pela pureza de minhas próprias palavras,
cansado, tão cansado, Fortaleza,
quase perdido por vos haver perdido.

Roteiros de bicicletas pela Praça do Carmo,
ganhando as distâncias das longas alamedas,
revendo as frágeis moças que passam
na doçura morna das tardes,
recompondo a imagem dos vendeiros encarapitados nos burricos mansos,
a suavidade dos contornos, a brisa envolvente, os oscilantes jardins,
os longos e inesperados encontros com o desconhecido,
os pressentimentos de inúteis e infindáveis viagens
do menino triste, sentado no muro, a mãozinha no queixo.

Cidade de meu pai enfermo. Minha cidade.
Cidade onde se pode chorar sobre os muros de saudade.
Cidade feita para as lágrimas e para adeuses,
para as súbitas e inexplicáveis alegrias.
Cidade onde o mar quebra
com o impulso de velhos marinheiros náufragos
que subitamente retornassem à pureza das praias.

2 comentários :

  1. Respostas
    1. São exímios nessa arte todos os lusófonos - não sei se existe relação com a língua, ou se é de uma genética mais profunda ainda.

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